🔵 Guarabyra vai às compras


 


Fomos ao supermercado. Sim, enquanto as mulheres e as crianças estavam no Parque da Mônica, no Shopping Eldorado, fomos comprar algo no supermercado.


Até aí, tudo bem normal. Normal, até passar, empurrando um carrinho, o Guarabyra. Calma! Antes que você pergunte o que é, onde vive e do que se alimenta um guarabyra, eu explico: é o cabeludo, com aspecto de índio americano, em constante estado meditativo, da dupla Sá & Guarabyra.


Nada demais encontrar alguĂ©m famoso num shopping de SĂŁo Paulo. O mistĂ©rio era: o que o mĂşsico bicho-grilo fazia na “meca” do consumo porco, no templo do capitalismo selvagem? Logo Guarabyra, que entoava canções singelas como Cheiro Mineiro de Flor, Estrela Natureza, Trem de Pirapora, Atrás da Poeira, Outra Vez na Estrada, Coração de Maçã, Pássaro, Harmonia e Meu Lar Ă© Onde EstĂŁo Meus PĂ©s.


O sujeito que eu imaginava encontrar num lugar bucĂłlico, uma estrada poeirenta de SĂŁo TomĂ© das Letras, em Visconde de Mauá ou em qualquer lugar mais de acordo com quem cantava coisas da natureza, nĂŁo num centro de compras, no bairro de Moema. Definitivamente, naquele ambiente era mais provável encontrar o Alex Atala ou a Ana Maria Braga 


A maior decepção era desmascarar aquele mĂşsico que eu sempre acreditei que tomasse chá do Santo Daime no cafĂ© da manhĂŁ, alimentava-se de luz solar, no máximo, comesse raĂ­zes, sementes e folhas. Mas ele estaria carregando naquele carrinho uma lata de Neston, um pacote de bolacha Trakinas, um pote de margarina, um saco de Cebolitos, uma garrafa de Diet Dolly, 300 gramas de salame e um saco de pĂŁo Pullman. Eu sempre supus que o artista plantasse e colhesse seus prĂłprios alimentos orgânicos. 


Por acaso, descobri: tudo o que o hippie cantava era uma farsa, engodo para vender discos. Seu dia a dia era entre “sabĂŁo em pĂł que lava mais branco” e biscoito vitaminado. Descobri que o Guarabyra levava uma vida como eu, urbana. Deve ter enchido aquele carrinho com comida industrializada — cheia de glĂşten, lactose, sĂłdio e colesterol ruim. Sairá guiando um automĂłvel — despejando gases nocivos na atmosfera. Ouvirá sua esposa reclamando que ele nĂŁo trouxe fermento e que largou a toalha molhada na cama (mais uma vez).


Naquele dia, aprendi que as canções que falam de uma cabana isolada atrás da montanha sĂŁo utĂłpicas. Esse cenário apenas existe na MPB e em filme de terror. Aquele papo de “PĂł da Estrada” acaba dentro de um supermercado com vocĂŞ empurrando um carrinho emperrado e ouvindo reclamações.