Postagens

🔵 Las Vegas de boteco

Imagem
  As coisas haviam mudado. Foi quando percebi que esperava que, quando eu parasse na porta de um bar, tudo estivesse exatamente como eu imaginava: meus amigos sempre no mesmo local. Só variava se a mesinha era de plástico ou de ferro e a logomarca estampada. Mas aqueles dias mostravam que tudo havia mudado. Todos, em pé, depositando moedas, a fé e acionando a alavanca. A maquininha caça-níqueis acabou com nossas mentiras sinceras e monopolizaram as atenções. Aquele panorama dizia que eu estava perdendo algo. Mesmo sem apostar meus centavos naquela novidade eletrônica, eu aderi à torcida para que aquela máquina fosse programada para demonstrar alguma compaixão e sentisse um pouco de dó de nós, despejando assim, uma cachoeira de moedas. Nós, a classe trabalhadora, não depositávamos, junto das moedas, grandes ambições, apenas ganhar umas cervejas a mais. Ou seja, de qualquer maneira, o prêmio acompanharia as nossas economias, ficando na caixa registradora do bar. O maior prazer era ve...

🔵 Não faça isso em casas

Imagem
  A Ditadura Militar havia terminado, mas era preciso lembrar que éramos perigosos e estávamos por perto. Nosso recado era uma bomba. Cada integrante daquela guerrilha urbana estava exaustivamente treinado, e todos sabiam o que deveria ser feito. Mal o artefato foi aceso, aquele bando saiu correndo, deixando um companheiro para trás. A garagem vazia aumentou o estrondo da explosão. A mãe de um daqueles pirralhos chamou. Já estava tarde, no dia seguinte haveria aula. Fim daquela “brincadeira” besta de miniguerrilheiro urbano. *** Horas antes: a fileira de moleques sentados na calçada denunciava a falta do que fazer. Mas para quebrar o tédio, sempre surgia uma ideia bem idiota. Quando duas ou mais sugestões iluminavam aquelas mentes dos anos 80, a mais imbecil era aprovada por aclamação. Todo o nosso ímpeto incendiário só poderia ser aplicado com alguma segurança na lojinha de artifícios explosivos mais próxima. As bombinhas estavam sendo comercializadas num cubículo. As aparências e...

🔵 A viagem

Imagem
 O passageiro ao meu lado falava alto e zombava dos passageiros que ousavam chegar ao fundo do ônibus. Todos tinham a garantia de serem ofendidos, porque o desembarque obrigava a passar pelo ”corredor da morte”. O “entertainer” da viagem dava sinais indiscutíveis de embriaguez. E alguém que não entendesse a situação, portanto, ficasse zangado com os impropérios poderia tirar satisfação com o provocador do fundo do ônibus.  A ebriedade agressiva e a folga do sujeito impediam sua avaliação de quem deveria ser desrespeitado, de modo que ele mexia com pessoas de qualquer temperamento, tamanho e aparente força. O cara realmente parecia possuído pelo demônio. O protagonista de tudo o que está nos primeiros parágrafos era o meu amigo, isso me colocava no epicentro da ocorrência. Por, em muitos momentos, rir da situação, eu seria facilmente  confundido como cúmplice. A disposição da nossa turma de amigos com mochilas não deixava dúvidas: estávamos viajando juntos, então, cabia a ...

🔵 Dois caramujos no caminho

Imagem
  Os dois caramujos estavam interrompendo o meu caminho. O quintal de terra e o súbito espírito de protetor dos animais me fizeram poupá-los do atropelamento pelo meu Gol 86. Só para ter certeza, conferi: debaixo do carro, um tanto quanto imóvel, o casal estava lá, protegido pela casca. Fruto da miscigenação entre europeus, povos originários e escravizados africanos, minha mãe era uma enciclopédia de simpatias revigorantes, unguentos medicinais, beberagens milagrosas, crendices populares, histórias de lobisomem, mula sem cabeça e outras assombrações do interior paulista, bem como, o essencial do curandeirismo natural. Ou seja, uma potencial candidata à fogueira da Santa Inquisição.  Portanto, consultei-a sobre a presença dos dois animais na garagem. Ela me afirmou com expressão preocupada: os caramujos africanos são “coisa-feita” — um tipo de “trabalho” para prejudicar. Tive a impressão que meu quintal havia virado uma encruzilhada. Toda vez que eu tirava ou guardava o carro, ...

🔵 Tem um Miranda na loja

Imagem
 A loja de livros e CDs da rede francesa contava com uma presença significativa: Carlos Eduardo Miranda. Aquilo logo chamou a atenção: ele surgiu vestido como um adulto fantasiado de criança ou como um cicerone de resort havaiano.  Tudo lembrava um conjuntinho infantil: a camisa florida era engraçada, mas foi junto do tênis colorido e os óculos escuros na testa que o gordinho de cabelos grisalhos ganhava um visual de eterno adolescente. Toda aquela composição dava um aspecto de “nerd” de meia-idade, daqueles que veneram lutas lendárias entre super- japoneses e que contam histórias ficcionais como se fossem verdadeiras. O “gauchês” tornava aquela figura mais peculiar. Talvez o grande público o conhecesse como “o gordinho jurado do Ídolos”, mas eu o conhecia como “o gordinho produtor musical”. Apesar de escolher CDs seja seu trabalho, ele sempre exibiu esse visualzinho de férias eternas. Miranda empilhava CDs na sacola como quem comprava frutas na feira ou apanhava itens na prat...

🔵 Disque 15

Imagem
 Era desanimador ligar novamente para a companhia telefônica espanhola e ser atendido por um robô inepto e mal-educado. Enfim, alguém, digamos, humano surgiu para me socorrer. Mas a  gigante das telecomunicações deve ter orientado os atendentes para atingir meu sistema nervoso central ou desequilibrar qualquer estado de calma zen-budista e estado meditativo. Diferentemente das máquinas falantes, os funcionários eram orgânicos, porém, suas falas, robotizadas. Fui levado aos fragmentos restantes de sanidade mental e convencido a desistir. No entanto, disposto a manter a honra,  encontrando forças para reaver meu suado dinheirinho, determinado pelo ódio e com uma confiança compatível com quem quer fazer valer o ‘Código do Consumidor’, decidi comparecer ao PROCON (Programa de Proteção ao Consumidor) mais próximo. Como nunca fui advogado, tive que interpretar um rábula de mim mesmo. Os filmes de tribunal deviam ser muito fantasiosos para minha realidade de consumidor indignado...

Ouça o que falo...

Imagem
Nem no falecido Cine Star, no centro de Guarulhos, se via tanto lixo. Mas depois do Oscar, descobrimos porque a indústria cinematográfica odeia tanto Donald Trump: a crítica parecia sinalização de virtude Democrata, mas, as imagens mostram, é falta de lixeira. “Pega bem” fazer discursos em defesa do meio ambiente da Groenlândia ou da Patagônia enquanto emporcalha o Teatro Dolby de Los Angeles. É um ótimo negócio defender a preservação de lugares distantes, quase imaginários; afinal, a distância geográfica justifica a inação.   O tapete vermelho faz sua parte, só mostra o luxo para lentes e flashes, mas é no “escurinho do cinema” que o lixo revela a grande encenação. Deixaram o teatro igual ao assoalho do meu carro ou à gaiola do meu velho papagaio; para limpar, bastava trocar o papelão. Mas não é só o ambientalismo de palco que “pega bem”. A igualdade de holofote, o humanitarismo de microfone e o pacifismo de câmera também são uma bela lição de moral. É sempre mais fácil defen...