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Mostrando postagens de abril, 2026

🔵 A ilha do medo

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  O objetivo dos dois casais era fugir do Carnaval. O feriado das fantasias e  alegria de plástico poderia ser pretexto para um retiro à base de fuga da Capital.  Providenciamos o local ideal, barraca e partimos para a escondida Prainha Branca. De fato, a tal Prainha Branca era afastada: acessível por ônibus local, trem, ônibus intermunicipal, balsa e trilha. Justamente, havia algum sacrifício para desbravar uma praia deserta.  Depois daquela peregrinação, o que encontramos não foi um pedaço de areia inexplorado, ocultado por restinga, falésias e a Serra do Mar.  Para nossa surpresa, depois de vencer a Mata Atlântica: chegamos à sucursal da Grande São Paulo ou uma filial da piscina do Sesc Itaquera. Estava muito lotada e não parava de chegar gente. A conclusão óbvia era que todos tiveram a mesma ideia: turistas querendo distância de… turistas. A vantagem seria que aquele santuário idílico era muito bonito, conseguimos escapar do Carnaval e nossa barraca seria fa...

🔵 Fraude na educação!

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  O método artesanal promovia aquela cola a um artefato artístico. Não tinha mais jeito, a proximidade do horário de ir para a escola me apressava a produzir um “resumão” da matéria, o sumo do que foi ensinado. Minha pequena contravenção escolar carregava o potencial de turbinar a avaliação.  Ludibriar todo o sistema educacional era um poder inversamente proporcional à minha retenção do conteúdo programático. O peso na consciência seria rapidamente substituído pelo “upgrade” na próxima reunião de pais e mestres. Minha busca analógica realmente era um tratado científico que merecia ser aludida como obra artística, mas seria eternamente vista como mera pilantragem. A instituição de ensino provavelmente reprovaria aquele comportamento, no entanto, se eu não fosse descoberto, o colégio elevaria seu nível pedagógico. Munido daquela trapaça, que foi confeccionada com tanta estratégia e esmero que seria mais fácil planejar o assalto de um banco, eu tinha a segurança para discorrer me...

🔵 As 10 +

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 Uma das coisas mais ridículas e inócuas que alguém pode fazer é votar por telefone para uma música entrar no “hit parade”, “as mais mais” ou “as mais pedidas". Mas, ignorando as leis do mercado, resolvi influenciar o ’Disk MTV’. Somando a inocência da pouca idade, o entusiasmo por conseguir sintonizar a recém-criada MTV brasileira e a ansiedade por querer assistir ao clipe novo do ‘Faith no More’, fui ao telefone público.  Eu realmente achava que a minha ligação faria diferença no ‘Disk MTV’, trabalho que a indústria fonográfica já devia ter feito. Aquele gesto realmente parecia importante para impulsionar, emplacar o videoclipe e dar um empurrão para o sucesso do grupo. Embora meu gosto musical ainda não fosse dos mais apurados, não podia ser cobrado pelo barulho e destruição do clipe ‘Falling to Pieces’. No entanto, eu estava decidido a interferir na programação da “music television ". Parti, acreditando que o meu voto era imprescindível para a execução daquele videoclipe....

🔵 Prafrentex

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  Apesar de parecer que aquilo não daria certo, eu estava disposto a me dedicar ou, pelo menos, contribuir para que tudo aparentasse ser verossímil.  Talvez por autoafirmação ou querer provar alguma coisa para alguém, elas precisavam namorar alguém da escola. A facilidade de já pertencemos ao grupo de amigos contribuiu para eu e meu amigo sermos escalados para a função. Mas o que causaria estranheza, seria minha “namorada” parecer mais velha, exibir um cabelo com 3 ou 4 cores e fumar no fundo da escola. Era bem capaz que aquela moça já se embriagasse, enquanto eu ainda me empanturrava com groselha vitaminada ‘Milani’ e ainda não tinha largado os vícios em ‘Aquaplay’ e ‘Playmobil’... Provavelmente, tudo aquilo passaria sem maiores desconfianças se a garota fosse vista com um selvagem  de motocicleta e ‘Marlboro’ no canto da boca. Mas, com apenas 11 anos, eu estava disposto a participar daquela farsa. Definitivamente, o ginásio estava sendo bem melhor do que diziam. Termina...

Master of puppets

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  Com humor é que se atinge quem se leva a sério demais. E foi com um “teatrinho de bonecos”, encomendado por Romeu Zema, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, saiu do sério. No genial entretenimento animado é fácil identificar os personagens, bem como, a verossimilhança dos diálogos. Os episódios da série até parecem infantis, mas revelam-se um subterfúgio eficaz para atingir “os intocáveis”. Ao acusar o golpe, o decano do STF — que é a “live-action”  do personagem de ‘A Praça é Nossa’, João Plenário — deu vida à versão brasileira do “Streisand Effect”. O “Efeito Streisand” é a repercussão do que judicialmente tentou-se colocar em sigilo. Conclusão: na intenção de abafar a lúdica crítica do Zema, Gilmar  ajudou a viralizar e converter em febre o vídeo e alavancar a popularidade do pré-candidato mineiro à Presidência. Gilmar Mendes, com sua erudição de ‘Wikipédia’, é especialista em conserto de sigilo quebrado e efeito laxativo no sistema de car...

🔵 Logo ali, depois do monumento

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  Desde que foi erigida, em 1962, continua em pé, alvissareira, solerte, orgulhosa. Essa inexplicável construção  é, dia sim, dia também, degradada; mas permanece aguentando intempéries, atentados e crimes contra a honra. Selecionada para reparação histórica, sempre é alvo de manifestações, é acusada de representação de um matador de índios, sua estrutura de pedra e ferragem já ardeu em chamas.  No entanto, a estátua do velho bandeirante suporta vento, chuva, calor e frio, como sentinela, gigante pela própria natureza, impávido colosso, guardando o bairro de Santo Amaro. Nem a Guerra dos Emboabas pôde ser pior que aguentar o barulho e a poluição do trânsito de São Paulo. Pejorativamente conhecida como *monstrumento”, a homenagem, que deveria ser chamada de monumento, já se tornou algo obrigatório na paisagem do distrito paulistano. Borba Gato recebeu a gigantesca homenagem, hoje é insultado diariamente, mas permanece vigilante. Resignado com o triste destino, eis o símbol...

🔵 A bruxa da FMU

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  Interrompendo a rotina da Secretaria do Curso de Direito, surgia a bruxa. Apesar do nome assustador, ela não tinha o poder de jogar algum feitiço ou manipular forças da natureza. Só de entrar na Secretaria, praticamente me “obrigava” a abandonar o arquivo, a papelada ou a atenção aos outros alunos. Bastava aparecer com seu vestido preto, crucifixo gigante e olhar loquaz para merecer a preferência no atendimento. Aquela bela “wiccana” não parecia possuir castiçais, velas, morcegos, sapos, aranhas e um gato preto; mas eu estava convencido de que a “bruxinha” possuía apenas bichinhos de pelúcia, alguns incensos e ‘O Livro das Sombras’, comprado em alguma livraria de shopping.  Mesmo que com finalidade comezinha, rituais femininos do puro suco da magia de boutique ou feirinha hippie exerciam um fascínio estético. Vestimentas de grife com suposta exclusividade podiam ser adquiridas em lojinhas esotéricas. Porém, aquela imagem não era comum. Contudo, uma transformação poderosa oco...

🔵 City Hotel

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  O City Hotel, apesar da antiguidade e aparência ameaçadora, não escondia nenhuma história de fantasma; não se eternizou por suas paredes testemunharem os segredos da alma humana; muito menos algum “rockstar” foi encontrado morto em um de seus quartos. Na verdade, esse prédio do centro da cidade apenas tinha a atmosfera da São Paulo antiga, quando ainda existia a desconfiança de que ali ainda ía voltar a ser “a Terra da Garoa”. Pois bem, naquela noite de sábado, íamos a uma festa numa cidade próxima à Capital. Mas paramos na entrada de um edifício no Centro: era o City Hotel. Era novidade que alguém vivesse onde o concreto e o trânsito pareciam hostis a moradores, mas era exatamente alguém do hotel que aguardávamos. Mesmo na condição de moradores, o “status”  era de hóspedes. Lá dentro, perdia-se a noção se era dia ou noite, sendo que qualquer compromisso parecia que começaria num bar com um copo na mão, já que seus habitantes utilizavam aquele imóvel pejorativamente como hos...

🔵 O feiticeiro

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  Em qualquer situação, o fanatismo deixa a irracionalidade comandar; sobretudo, no futebol, quando o emocional transforma torcidas em fileiras medievais antagônicas. Apesar da semelhança dos instintos primitivos, espadas são substituídas por barras de ferro. Algum grau do que pode ser chamado de fanatismo dura 90 minutos. Durante o jogo, eu sigo aquela máxima: “Futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”. Porém, um fato me tira toda a moral quando afirmo que nunca fui um torcedor fanático: eu já acendi uma vela para o Corinthians. Ignorando completamente que Deus não me privilegiaria em detrimento dos campineiros, eu improvisei o meu ritual e tentei manipular as forças da natureza. Meu altar futebolístico prescindiu de genuflexão, mas não de uma reza brava.  Com 13 anos, lancei mão daquela manobra mística para direcionar o resultado da final entre Corinthians e Guarani. O time não me inspirava muita confiança, portanto, apelei para a magia. Mas, sem saber, ...

🔵 O impostor

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  Não seria permitido sequer suspeitar da existência do “Bom Velhinho", já que me fantasiei e participei daquela farsa. Apesar de tudo ter acontecido no ambiente sagrado da igreja, com a barba de algodão, me senti um infiltrado descobrindo do que os adultos são capazes. Meio resignado, cooptado por aquele convescote sagrado e infectado pela síndrome do pequeno poder, retirava do saco os  punhados de balas e pirulitos e distribuía burocraticamente.  No salão da igreja, eu tinha o poder de decidir quais crianças receberiam a guloseima gratuita. E, o que é melhor, o disfarce evitaria qualquer revolução infantil, bem como pilhagens, saques e futuras retaliações. A figura mítica da Lapônia não faz nenhum sentido no Hemisfério Sul, por isso, continua sendo algo ameaçador, apesar dos esforços em vender-se como um idoso generoso e bonachão. Mesmo com a falsa construção de imagem, sempre haverá uma desconfiança de que atrás daquela lenda barbuda e fervendo num casaco vermelho exis...

🔵 Um tiozão no futebol

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  Naqueles tempos, não havia ações inclusivas nem o politicamente correto. Portanto, como a condescendência não me contemplaria com ações afirmativas, tinha que ser escolhido, para não experimentar o constrangimento existencial de sobrar nos times do clube. Talvez, não sobrar na escolha das equipes do “Vila” tenha me poupado em horas em consultórios de psicologia ou alguns remédios no psiquiatra, por isso, evitado um eventual instinto psicopata Sempre havia um “tiozão” passando bolas e fazendo lançamentos para a molecada, feito piranhas devorando um pedaço de carne, disputar a posse da bola e dar a vida por um gol.  O futibinha sangrento não tinha nada em disputa, mas valia tudo; era uma competição por um prêmio intangível, porém com um valor compatível com a Copa do Mundo. Aquele jogo de futebol aparentemente inocente era uma marcação de território silenciosa, praticamente o meio-termo entre a briga e o diálogo. A igualdade só era perceptível quando todos implorávamos por um ...

Picanha e cerveja

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  Na campanha, Lula prometeu picanha, mas entregou a abóbora. Logicamente, a picanha era só uma metáfora para anunciar a volta dos “bons tempos”; a abóbora também serve como metáfora do estelionato eleitoral. Conclusão: eu era feliz, quando ia na churrascaria ‘Novilho de Prata’, e não sabia. Com voz demoníaca, o candidato petista enganou parte da população, que foi seduzida pelo estômago, que caiu no “conto da picanha”. Malandro que é, o “ex-presidiário-em-chefe” lançou mão do “Mclanche Feliz” da periferia: churrasquinho e cervejinha. Assim, ele pavimentou a estrada que liga a carceragem à Presidência.  Entretanto, Lula tergiversou, sabendo que o brasileiro dificilmente saberá que o sonho de pagar menos pela proteína bovina era mera figura de linguagem. Como também devem ser metáforas as demais promessas de campanha e os números incríveis do IBGE, que ajudam a ilustrar o “Brasil Maravilha” da equipe de marketing do PT. A promessa do churrasquinho com uma gordurinha e a cerveji...

🔵 Videocasseteflix

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  O sinal avisava que era fim de aula. Isso só mudava o tom do que já estava sendo cochichado: depois do “estouro da boiada”, podíamos combinar de alugar o filme ‘Retroceder nunca, render-se jamais’. Na videolocadora ‘Project' encontraríamos a fita VHS. Videocassete, locadora e fita são coisas “bem anos 80”, e o tal de ‘Retroceder nunca, render-se jamais’ não poderia ser diferente: Michael Jackson, bicicleta cross, breakdance, roupas coloridas e penteados extravagantes num filme de pancadaria! Além de ser coalhado de referências oitentistas, o ‘Retroceder nunca, render-se jamais’ estava sendo muito comentado pelos moleques fanáticos da época. Como o senso crítico e a estética cinematográfica não eram muito afiados — aliás, completamente ignorados — a audiência do filminho era inadiável. Contudo, a procura era grande, portanto, não pudemos ver um tal de Jean-Claude Van Damme, que, como Schwarzenegger e Stallone, estava na carreira de extrair sangue na base da pancada. A obra ganhou ...

🔵 A imagem que diz menos que 1000 palavras

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  Ir para a Galeria do Rock sem voltar com um CD ou uma camiseta tornaria aquela incursão no submundo do Centro incompleta, mas a peça de roupa com uma estampa inusitada emprestaria traços bastante radicais à minha personalidade. A figura da criatura movida a fumaça me tornaria alguém perigoso. A camiseta com um extraterrestre fumando um baseado me pouparia o trabalho de fingir ser transgressor, além disso, a roupa tinha uma frase, especificamente um trocadilho bem sacado e sacana, atribuído à criatura interplanetária, que dizia: “Take me to your dealer”. O trocadilho maroto parafraseava o clássico do autoritarismo cósmico “Leve-me ao seu líder” para “Leve-me ao seu traficante”.  Na falta de inspiração para escolher uma estampa legal de alguma banda de rock, levei para casa uma camiseta preta com o desenho mais chocante dali, que não tinha nada a ver comigo, mas que carregava o potencial de apavorar a sociedade e a “família brasileira”. Como manter a sobriedade e o respeito se...

🔵 Espantando os males

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 O local já seria suspeito somente por ser em Guarulhos. O endereço isolado, mal iluminado e difícil de encontrar parecia representar risco de vida. Um karaokê escondido naquele lugar só poderia ser coisa de máfia ou lavagem de dinheiro, na melhor das hipóteses; talvez uma confraria muito hermética, seita ou sociedade secreta. Mas como era um convite de uma amiga, eu e meus amigos resolvemos subir no segundo andar daquele imóvel com cara de depósito abandonado. O primeiro aspecto não era bom. Pelos olhares, tive a clara impressão de que não éramos bem-vindos. O salão escuro, com alguns focos de luzes coloridas, revelava olhares orientais como se perguntassem: o que vocês querem aqui, brasileiros? Eu me lembrava daquelas cenas nos filmes: quase sempre eram reuniões da Yakuza (máfia japonesa), quando tudo acabava em pancadaria, garrafadas, tiros e sangue.  Uma estranha movimentação criava a autodefensiva expectativa de que alguém surgiria no salão com uma maleta cheia de maços d...

🔵 Viagem a Monte Líbano

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  Monte Líbano era o nome que eu ouvia na televisão, talvez isso tenha me surpreendido e encorajado a fazer a pergunta semanticamente inesquecível: “A gente tá em Monte Líbano?!” A pouca idade me perdoou por turbinar a importância de estar no mesmo local que a TV tanto falava. O caminho já deve ter revelado que não estávamos muito distante, porém, o nome “Monte Líbano” não era apenas do time de basquete famoso, era de um país distante. Sim, o acontecimento era que estávamos em Monte Líbano! Não importava a distância geográfica, a importância daquela ocasião jamais poderia ser ofuscada. “Monte Líbano” era um nome de grandeza bíblica, e nós podíamos pisar aquela “terra sagrada". Pois se no nome do lugar existe um acidente geográfico só pode ter sido o palco de um acontecimento histórico. O “monte” só podia ser coisa do Velho Testamento e do homônimo time de basquete, que homenageava o local memorável, e eu estava tendo o privilégio de estar lá. *** Minutos depois: a decepção foi pro...

🔵 Cama, mesa e banho

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Nos tempos em que o fígado fazia mal à bebida, chegávamos ao boteco com o entusiasmo de quem não tinha grandes responsabilidades e a maior preocupação era onde ir no fim de semana. Parecíamos indestrutíveis e a conversa girava pelas últimas desimportâncias da músicas, esportes e coisas do bairro. Com o tempo, as compras farmacêuticas tornaram-se frequentes e doenças, dores, nomes de remédios, bem como exercícios ganharam o protagonismo nas rodas de conversa. O que antes era papo de “véio” tornou-se o assunto preferido para os velhos amigos com lugar de fala. Mas a “pá de cal” no vigor daquelas conversas de mesa de bar surgiu quando eu entrei numa filial das Lojas Mel. O auge da humilhação foi no momento em que comecei a frequentar a maldita loja de utensílios domésticos à procura de promoções e soluções para o lar. Eu, que falava de inutilidades como música, esportes e viagens, comecei a falar de remédios e agora disputava espaço com donas de casa nos corredores de uma loja que eu aval...

🔵 O índio do Lula

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  Quem não se comoveu ao ver o banqueiro Daniel Vorcaro de cocar de índio já morreu por dentro. O proprietário do Banco Master — que oferecia um portfólio de falcatruas — devia estar muito à vontade para desfilar com o enfeite de cabeça de chefe indígena. Trata-se de um arquétipo que ficou folclórico e virou fantasia de Carnaval. Com farta distribuição de bebidas alcoólicas e o mulherio internacional, Vorcaro armou uma “ratoeira" para atrair políticos e gente influente. Essa armadilha com o material comprometedor das festinhas para achaques futuros é uma técnica russa conhecida como”kompromat”.  Quando Lula subiu a Rampa com várias representatividades já estava sinalizando que seu governo seria para todos. Pois Vorcaro não se esqueceu e homenageou os povos originários. A artificialidade de representar um autóctone com indumentária da 25 de Março não fica muito diferente dos nossos índios de protesto. Lula subiu a rampa do Planalto acompanhado de uma diversidade selecionada com...

🔵 Gigi, a excêntrica

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  Apesar do nome (apelido) meigo, ela era uma menina brava. Um produto daqueles longínquos, politicamente incorretos e contaminados pelo “bullying” anos 80. Talvez Gigi fosse, digamos, um pouco à frente de seu tempo, pois brincava, jogava bola na rua com os meninos e às vezes surrava algum. Como se não fosse suficiente, a menina apareceu com um tamanduá preso numa coleira. Como se fosse um cachorro, ela e o animal passeavam pela rua de paralelepípedos, onde, eu supunha, a oferta de formigas era bastante escassa. Eu provavelmente já tinha visto aquele bicho no zoológico ou num desenho animado, mas não passeando como um animal de estimação. Aquela cena era de um surrealismo jamais presenciado na vila, praticamente uma realidade paralela, no entanto, a garota fazia uma cara “blasé” e se comportava como se aquilo fosse normal,  fazendo eu me sentir muito comum por possuir apenas um... cachorro. ***  Na escola, primeiro dia de aula, lá estava ela. A Gigi me reconheceu. Me dava...

🔵 Dupla personalidade

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  No acampamento de Brotas, encontramos a paz que traria o esquecimento que era Carnaval. Não chegava a ser um retiro espiritual, mas um distanciamento da festa popular feita sob medida para os que necessitam de um feriado para experimentar a concessão da alegria. As caminhadas à cidade revelavam um cenário composto por aspectos além da pracinha, a igreja, a ruralidade predominante. Não havia a folia da qual havíamos fugido, mas sim a figura ameaçadora do sujeito com cara e indumentária de um vilão do Velho Oeste. Aquilo já seria suficiente para trazer o arrependimento profundo de estar ali.  Contudo, seu aspecto soturno e olhar desconfiado enquanto amolava um facão trouxe um pouco de pavor e o desejo que aquilo tudo fosse apenas a fantasia, caracterização, mergulho no personagem e representação de Lampião, o rei do cangaço. Pelo sim, pelo não, aquela imagem tirava o sossego e a coragem de cruzar o seu caminho. *** O Carnaval contaminou a rua principal de Brotas. Apesar de fru...

🔵 O tabuleiro da prosperidade

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Com claros sinais exteriores de riqueza, estava evidente que a sorte havia me ajudado a construir 4 casinhas no Brooklin. A partir daí, o rolar dos dados me propiciou levantar hotéis e mais casas em endereços nobres residenciais e comerciais: Leblon, Copacabana, Morumbi, Jardim Paulista, avenida Faria Lima etc.  Meus rudimentos no mercado imobiliário realmente possibilitaram a obtenção de riqueza. Entretido naquele jogo financeiro, fiquei contaminado pela cegueira monopolista e aproveitei os bons ventos da corrida de poder. Mesmo sem experiência, passei a ser proprietário de companhias: aérea, de navegação, de trem, de ônibus e uma frota de táxi.  Sem muita chance de expandir meus tentáculos capitalistas, passei a administrar meus imóveis e empresas, bem como, me acabar em gargalhar dos meus concorrentes que, ocupando minhas propriedades, me sustentavam naquela aventura pecuniária com multas. Além disso, o banco me abastecia com rendimentos. Se a situação não estivesse favoráv...

Bola pra frente

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 Neymar, jogador do Santos, criticou o árbitro, afirmando: “parece que acordou de Chico” e deu uma risadinha besta. Os jornalistas lacradores correram descobrir a explicação etimológica do termo retrógrado sobre menstruação. O jogador de futebol só foi bobo. Eu também ri dessa palavra na escola, quando tinha uns 11 anos de idade.  Mas as feministas e “feministos” “levantaram voo ao redor da lâmpada” e, “antes de perderem as asas”, desceram a lenha no Neymar. Apesar da linguagem apenas tola, mesmo em um ambiente futebolístico, ele foi chamado de misógino.  No canal GE, em vez de comentar uma jogada, a comentarista resolveu espinafrar o “menino Ney”. Para colaborar com um “duplo twist carpado retórico” de impacto, ela soltou: “É assim que começam todos os tipos de preconceitos que nos matam todos os dias” — ?? A jornalista falou isso no grupo da emissora que já fez mais “teste do sofá" que as ‘Casas Bahia’ e a ‘Marabraz’ juntas. Claramente, trata-se de perseguição política ...

Acredite no que falo, não no que você vê

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  Em ano eleitoral, os correligionários de Lula insistem em emplacar a narrativa de que ele está bem de saúde. Porém,  depois da visita a uma companhia aérea, ficou mais difícil sustentar essa falácia: Lula disparou brincando de aviãozinho, lembrando Galeão Cumbica, um doido dos programas de humor.  Comparando a outro presidente que necessitava de uma “embalagem” para “vendê-lo” bem, Lula lembrou Joe Biden, o presidente americano que cumprimentava “ninguém" e saía do púlpito rumo ao desconhecido. Apesar dos evidentes sinais de senilidade, era retratado, com uma empolgação de claquete, como “afiado como uma navalha". Como Biden, Lula, um senhor que sai correndo com um aviãozinho, precisa ser contido. Além do ato incompatível com a idade, o petista vem cometendo “sincericídios”. Antes que a imprensa investigativa ou a Polícia Federal descubra, ele sempre confessa que é desonesto. O “ato falho” pode ser um reflexo da dissonância cognitiva que causa o curto-circuito que vaza ...

🔵 Atividade extracurricular

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  Aquela aula vaga parecia ser o passe-livre para celebrar a abolição educacional, saquear e destruir a sala de aula. Deu gosto, acho que foi libertador ver a garota mais quietinha da turminha do primário participando daquela rebelião infantil.  Mas o inspetor de alunos interrompeu o nosso pequeno carnaval fora de ambiente e de época, bem como a descoberta de um mundo sem a vigilância dos adultos. Tivemos que formar uma fila rumo à Diretoria. Alguns nunca sequer haviam recebido um mísero bilhetinho, de modo que a Diretoria era o equivalente à cadeia. Como éramos muitos, ocupávamos todas as cadeiras que existiam naquela sala opressiva; o restante, na verdade, a maioria, estava em pé, escorando-se nos quatro lados da parede. A diretora demorou, mas veio nos “atender”. Para ser sincero, ela veio para nos dar uma correção coletiva.  A diretora sabia que a ameaça de submeter algum aluno à sua presença era o último estágio depois da ameaça, da bronca, do castigo e do bilhetinho...

🔵 Estratificação famélica

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 O sinal do intervalo destruía a utopia das salas de aula. A fila da sopa reunia uma casta que com a contribuição da cantina separava os estamentos sociais. Contudo, “o dinheiro pro lanche” era o acesso àquela escadaria, que significava a ascensão social que tirava alunos da fila da sopa e transportava à cantina. O simples deslocamento para a nutrição terminava com as duas aglomerações que, com um olhar mais atento, era a representação da nossa pequena sociedade estamental. O comércio de guloseimas reservava uma prateleira compatível com o baixo poder aquisitivo. E era lá que estava o salgadinho amarelo — maldosamente apelidado de isopor, por causa da consistência de enchimento de embalagem de papelão. O cheiro de chulé e o gosto de pneu queimado também contribuíam para o  precinho camarada.  Minhas economias não eram suficientes para o trio esfiha/Coca/chocolate, mas arremataram o isopor, digo, salgadinho. O sabor da iguaria era horrível, mas era amarela e fazia barulho ...

🔵 Poder psicológico

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  A “Máfia da 7ªB” só era perigosa no pretensioso nome. Havíamos deixado os tempos em que chamávamos professora de tia, intervalo de recreio e corríamos no pátio. Afinal, nos sentíamos adultos, pois não ganhávamos mais os presentes do 12 de Outubro. Mas aquela turminha com 13 e 14 anos de idade perderia a credibilidade e se recolheria à sua insignificância se tivesse noção de que não passava de um bando de pivetes do ginásio. Porém, o superestimado poder do grupo permitia àqueles garotos andarem pelos corredores da escola. Talvez poucos alunos de outras salas de aula levassem a sério nossa arrogante inspeção antes que um adulto acabasse com aquilo. Sem saber, a “Máfia da 7ªB” ocupou o território abandonado pela turma da 8ª, que já se preparava para o colegial. Ignorando essa permissão por absoluta ausência de interesse, ocupávamos aquele espaço achando que intimidávamos a comunidade estudantil. Naquele 1989, seguimos exercendo o nosso direito adquirido de circular pelos corredores ...

🔵 Las Vegas de boteco

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  As coisas haviam mudado. Foi quando percebi que esperava que, quando eu parasse na porta de um bar, tudo estivesse exatamente como eu imaginava: meus amigos sempre no mesmo local. Só variava se a mesinha era de plástico ou de ferro e a logomarca estampada. Mas aqueles dias mostravam que tudo havia mudado. Todos, em pé, depositando moedas, a fé e acionando a alavanca. A maquininha caça-níqueis acabou com nossas mentiras sinceras e monopolizaram as atenções. Aquele panorama dizia que eu estava perdendo algo. Mesmo sem apostar meus centavos naquela novidade eletrônica, eu aderi à torcida para que aquela máquina fosse programada para demonstrar alguma compaixão e sentisse um pouco de dó de nós, despejando assim, uma cachoeira de moedas. Nós, a classe trabalhadora, não depositávamos, junto das moedas, grandes ambições, apenas ganhar umas cervejas a mais. Ou seja, de qualquer maneira, o prêmio acompanharia as nossas economias, ficando na caixa registradora do bar. O maior prazer era ve...