🔵 O prefeito no Motoclube
A motocicleta era emprestada, mas eu ia para o motoclube mesmo sem moto, sem correntes, sem jaqueta de couro e sem cara de mau. E, depois dessa noite, percebi que outras tribos estavam frequentando o local.
O imaginário popular, o visual estereotipadamente agressivo (muitas vezes anedótico) e a mística gerada pelos “Hells Angels” criou uma impressão exagerada acerca de integrantes de motoclubes. Engenheiros, policiais, médicos, advogados etc transformam-se em cima da motocicleta e resolvem brincar de quem bate na mãe, chuta cachorro e não chupa mel, mastiga abelha.
Um senhor, que alternava sua vida entre candidato, deputado, prefeito e de vez em quando empresário de Guarulhos, chamado Paschoal Thomeu, resolveu passar algumas horas mergulhando no submundo da noite alternativa. Tentou a sorte, para colher um punhado de votos, no encontro de motociclistas.
Sinceramente, me enganei ao imaginar que o político encontraria ambiente hostil para lograr êxito no seu objetivo. Pelo contrário, apesar do seu visualzinho destoar bastante da frequência avessa aos representantes do “status quo”, o velho prefeito se saiu bem.
Entre motos acelerando, cerveja barata, carne de segunda e “rock and roll”, Paschoal Thomeu se deslocou com desenvoltura. O magnata “colou” na nossa roda de amigos. Ele parecia disposto a se humilhar para conquistar mais alguns votos. Esquecendo-se do abismo social que separava o eterno chefe do Executivo Municipal da, aparentemente, escória da sociedade, ele estava disposto a agradar aquela turma.
Meu amigo, durante o dia um prestativo motoboy de farmácia, à noite no motoclube, se vestia do jeito mais repugnante (punk mesmo), talvez querendo chocar a Humanidade. Pois esse sujeito, fazendo um gesto banal, foi acender mais um cigarro. O candidato se aproximou e capturou o fumante. Num gesto furtivo, parecendo ter prática naquilo, Paschoal Thomeu apanhou cigarro e isqueiro e se submeteu a um indiferente punk. O político parecia disposto a acender o cigarro nem que fosse com um maçarico ou um lança-chamas.
Sentindo que o momento lhe parecia bastante favorável, aceitou os serviços do inacreditável garçom. Vendo aquilo, acho que todos os motociclistas pensaram ser a ocasião ideal para pedir o asfaltamento de uma rua, a limpeza de um terreno ou o desentupimento de um córrego, mas aquele encontro de motociclistas já estava parecendo uma reunião de condomínio ou diretório partidário.
Após a evasão daquele intruso, o encontro do motoclube voltou a sua normalidade. Entre motos, cerveja, churrasco e rock ‘n’ roll, nossa rotina era bem melhor longe do Poder Público, mesmo que interesseiro.
