🔵 Irmão de bailarina


 Deveria existir uma categoria: o irmão de bailarina. É uma categoria quase trabalhista, portanto, eu deveria ser sindicalizado.


Esse indivíduo ostenta um conhecimento musical que tem a amplitude do ACDC ao pianista Richard Claydermann e pronúncia palavras afetadas, que fazem parecer que foi alfabetizado em francês ou foi criado pela avó na Suíça. Sem ter uma irmã bailarina, meu universo cultural se restringiria a coisas como ‘A Praça é Nossa’, ‘Big Brother’ e ‘Casos de Família’; no entanto, entraram para o meu vocabulário: ‘Bolshoi’, Ana Botafogo e lantejoula! E quando alguém fala em quebra-nozes, o irmão de bailarina pensa no espetáculo, não no objeto.


O paradoxo que significa estudar em uma escola pública da periferia de Guarulhos e ter uma irmã estudando na Escola Municipal de Bailado é a zona cinzenta entre o barraco e os salões europeus. Você joga bola na rua e, de repente, entra na casa onde toca ‘Tchaikovsky’.


Numa casa onde existe uma bailarina não pode haver antena de televisão com bombril, tapete de carro no banheiro e pino T com mais de 3 tomadas ligadas; entretanto, na casinha de Guarulhos, toda essa gambiarra convivia. Também não é compatível uma bailarina ser corinthiana; porém a hereditariedade foi implacável e o destino, controverso.


Ser um irmão pobre de bailarina, que não seja de projeto social, é um fenômeno tão raro quanto o eclipse solar. Segundo as civilizações da Antiguidade, isso só ocorre quando a configuração planetária de combinação específica apresenta um alinhamento de planetas bem incomum. 


Portanto, a singularidade do evento astrológico explica a influência na minha vidinha suburbana.



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