🔵 São Paulo vista de cima


 

De longe, avistei o prĂłximo “alvo”: Circolo Italiano (EdifĂ­cio Itália). Alugar um “smoking” ou um helicĂłptero encareceria aquela tarefa. Mesmo sem um figurino adequado, a ocasiĂŁo praticamente me obrigava a subir o arranha-cĂ©u naquele instante.

NĂŁo era o mais alto de SĂŁo Paulo, mas era bem imponente, icĂ´nico e com uma vista, digamos, geomĂ©trica. Para quem nĂŁo se contentava apenas com a paisagem urbana, tinha a Serra da Cantareira cercando toda a Zona Norte. 

De elevador, alcançar o topo do prédio de 165 metros e 46 andares era o modo mais ortodoxo de se locomover, onde já subiram escalando e desceram de paraquedas. Não sendo louco nem suicida, fui admirar a cidade pelo alto.

Quando as portas abriram, vi que estava praticamente dentro do Terraço Itália, o requintado restaurante dos ricos e famosos de antigamente. Boné entortado, jaqueta jeans surrada e mochila nas costas acentuavam a diferença de renda e tornavam a travessia do nobre salão uma ilustração, bem como uma pretensiosa denúncia da desigualdade social.

O “maĂ®tre” devia estar familiarizado com a presença de caçadores de imagens urbanas aĂ©reas, portanto, apesar do traje ultrajante, a presença de mais um fotĂłgrafo naquela cobertura era tolerada. Como se a indumentária  fosse submetida a uma rápida análise, eu esperaria ser barrado ou ignorado pelo segurança, garçom ou “maĂ®tre”. Diferentemente das minhas expectativas, fui bem recebido, bem tratado e orientado. Pronto, num flagra antropolĂłgico, pude testemunhar o “bunker” onde a falida aristocracia paulistana decaĂ­a com elegância.

Saquei a jurássica máquina fotográfica e comecei a clicar as fotos mais retratadas no manjado endereço da Avenida Ipiranga, centro de SĂŁo Paulo. 

Satisfeito com as imagens capturadas, abri mão do cardápio e saí com pressa. Destoando da, ainda que decadente, saudosa elite paulistana, com o meu aspecto proletário, abandonei o sofisticado restaurante como quem havia acabado de furtar um talher de prata ou um copo de cristal.