🔵 Máquina de vendas
Como rotina de promotor de vendas, entrei no hipermercado. Mas aquela loja estava vazia, apenas alguns funcionários garantiam o funcionamento necessário. Acessando o depósito, comecei a decifrar aquele dia estranho: reunidos no “backstage”, funcionários, colaboradores e chefes se comportavam como uma seita ou religião fanática. Eles estavam apenas mimetizando um comportamento americanizado.
Animado, o “mestre de cerimônia” gritava frases motivacionais e palavras de ordem. A palestra era interrompida por aplausos, “ú-hus” e palavras-chave ditas com entusiasmo. A postura sectária dava a impressão de transe coletivo, hipnose e uma triste paisagem de palestra motivacional da área de vendas. Pelos filmes aos quais assisti, sabia que isso um dia iria acontecer, e um hipermercado vazio seria o cenário perfeito.
Eu já me preparava para dar o fora dali, quando vi que havia uma mesa cheia de comes e bebes. Isso me fez acompanhar a palestra motivacional. Prestei muita atenção e fiquei imerso naquela celebração conjunta às vendas. Notei que havia algum grau de fanatismo ali. Aquele comportamento estúpido só podia ter sido instalado artificialmente naquela turma.
Era difícil acreditar que aquelas pessoas, que eu considerava apenas preocupadas em receber um holerite honesto no quinto dia útil, estavam recebendo uma lavagem cerebral e, absortas, disputariam para atingir metas de vendas, numa gincana análoga à escravidão.
Consciente de que eu não era remunerado para aquilo e de olho na comida, teria que atravessar, atrapalhando e interrompendo o que parecia cada vez mais um culto.
O hipermercado americano trouxe esse tipo de animação plastificada e imbecilizante a fim de vender alguns produtos a mais. Aquela foi a maneira encontrada de introjetar a frase “o cliente tem sempre razão”.
A catarse em grupo parecia longe de terminar, porém, percebi que, igual a mim, alguns participantes daquela ode às vendas também aguardavam a ordem para atacar o coquetel.
Depois da cerimônia, com o espírito renovado, a empolgação à flor da pele, todos foram liberados e, com os ânimos renovados, espalharam-se pela loja. Bem alimentado e repleto de júbilo, fui pegar as pilhas e lanternas para reposição.
