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A mais basilar das orientações recomendava para não aceitar doce de estranhos. Mas aquele palhaço já era bem conhecido e parecia simpático, praticamente alguém da família. Hoje, sei que eu era muito novo para ser vítima de estelionato, mas Bozo oferecia prêmios, portanto, resolvi telefonar para o palhaço americano.


Era simples, bastava ir ao telefone público (orelhão) e acertar alguma charada para ganhar uma bicicleta ou um videogame.


Bozo: “Amiguinho, sua ligação é muito importante para mim…”


A voz era inconfundível, mas a alegria inicial, por ter estabelecido contato com o palhaço, foi substituída pela tristeza e revolta da recomendação: “Tente outra vez”.


Decepção. Aquele pronunciamento era de uma alegria artificial, uma satisfação protocolar, uma criatura burocrática, diferente daquele sujeito animado, colorido e fantasiado que divertia as minhas manhãs. A gravação revelava toda aquela palhaçada. Francamente, naquela mensagem, o palhaço não me pareceu tão generoso como na televisão.


O paroxismo da ingenuidade era tentar ser contemplado com brinde televisivo, pois eu era uma vítima daquela palhaçada. O maldito saltimbanco importado   estava trapaceando milhares de crianças, portanto, matando sonhos.


Durante muito tempo, eu insisti em reclamar o meu brinde, porém, sem sucesso. Eu sempre era atendido pela maldita voz eletrônica, não por aquele palhaço bobo e ganancioso, treinado para vender brinquedos e ludibriar crianças.


Quando fui pela excursão da escola ao programa daquele tolo histrião tive grande chance de tirar satisfação; porém, me colocaram entre outras crianças com um pompom e fiquei, de novo, sem o meu prêmio.


Não tinha jeito, o sorteado sempre era alguém de uma cidade desconhecida de um estado obscuro. Eu tinha que me contentar com desenhos animados e todo aquele amontoado de informações visuais e auditivas. Além dos também lúdicos anúncios de brinquedos, que não passavam de truques que terminavam com o histórico imperativo da súplica capitalista infantil: “Peça para a mamãe”.



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