🔵 Vossa excelência

 


Partimos para soltar quadrado (empinar pipa) no terreno baldio. Aquele domingo ensolarado convidava qualquer moleque a pular da cama e passar o dia olhando para o céu. Mas a brincadeira só era infantil de acordo com a nossa idade, porém, o cortante na linha transformava a inocente atividade num potencial crime.


E foi com esse espírito de competição que cortamos e aparamos um maranhão (tipo de quadrado). Aquele ato era comum e fazia parte de um acordo tácito entre os participantes. Entretanto, o proprietário daquele quadrado apareceu para recuperar o objeto.


Com 2 metros de altura, uma raiva incompatível com o caráter lúdico do entretenimento e equipado com um facão, fomos apresentados ao lendário Pantera. O...  senhor Pantera me pareceu levemente embriagado, portanto, como o improvável litigante apresentava um aspecto de quem não bebeu com moderação, quaisquer argumentos seriam inválidos.


Sinceramente, bastava enviar qualquer pivete ou uma justiceira com algum instinto materno, que seríamos convencidos a entregar o artefato, mas despacharam um sujeito armado e cheio de ódio decidido a ser o protagonista de uma chacina. Se fosse um joguinho de videogame, tenho certeza, aquela seria a última fase, e o Pantera seria o principal vilão a ser destruído. No entanto, o... senhor Pantera, sem noção, pareceu ignorar que se tratava de dois pirralhos, chegou com fúria e decidido a reaver o maranhão a qualquer preço.


Pantera estava com a fé cega e a faca amolada o bastante para ignorar nossas justificativas, contudo, como não queríamos irritá-lo mais, e apesar de sermos apenas duas crianças empinando quadrado num terreno em um domingo ensolarado, aquilo já tinha acumulado uma quantidade de riscos de morte inimaginável: cortante na linha e o Pantera armado.


Como é presumível, a... digamos... negociação foi rápida, e fomos convencidos a entregar o bem reivindicado. Não ganhamos um amigo, mas Pantera nos poupou a vida e voltou para a jaula.



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