Vida de plástico
Durante a Inglaterra Vitoriana, havia um mórbido costume: fotografar pessoas mortas. Dentre elas, bebês. O fotógrafo, profissionalmente, posicionava os cadáveres como se estivessem fazendo pose.
O preâmbulo histórico é só para lembrar que a loucura humana em tratar bebês inanimados com carinho, atenção e seriedade maternos já era comum no século XIX.
A febre dos “bebês reborn” é um tipo de doença que não atinge os “recém-nascidos”, mas quem se diz genitor do exemplar de boneca. A semelhança com a época inglesa da rainha Vitória está com a aparência de bebê morto.
O brinquedo é levado a sério a ponto de participar de atividades que são reservadas a crianças de verdade: batismo, pronto socorro e judicialização. Por vários motivos, o bebê é impossibilitado de fugir dessa loucura, por isso, serve de objeto para preencher um vazio existencial, fetiche passivo para completar espaço da carência humana ou simples maluquice
Mas o simulacro não serve apenas para ocupar um vão existencial; também pode ajudar a furar filas do supermercado, lotérica, etc. Isso não deixa de ser uma modalidade de estelionato, aproveitando a sensibilidade e empatia alheia, entretanto, sem caracterizar a exploração infantil.
Os ‘bebês reborn’ são pequenas maravilhas para qualquer ditadorzinho caseiro, pois recebem ordens sem retrucar: qualquer reprimenda será respondida com o silêncio. Além disso, dão mais sentido à vida, substituindo os“pais de pet”.
Embora macabra, a existência da réplica assustadoramente fiel não é mais preocupante que o horrível apego à prótese afetiva. Isso só acontece porque existem vidas de plástico.
