🔵 Óleo de fígado de bacalhau
Era um clássico do “abre a boca e fecha os olhos”. Aquela garrafinha - na parte de cima do armário, entre as contas de água e luz - era uma ameaça eterna e silenciosa, paradoxalmente dizendo: moleque, sua hora vai chegar.
A personificação tinha relação com a vida própria daquilo, certamente, o conjunto só poderia ter sido pensado para aterrorizar: a embalagem lembrava remédio, o nome repugnante, o rótulo apavorante, a aparência do conteúdo péssima, a consistência nojenta e o sabor horrível. Aquela visão espantava qualquer um, mas diziam que, paradoxalmente, fazia bem. A vitamina vinha disfarçada com o eufemismo ininteligível de ‘Emulsão Scott', mas a máscara desabava após uma observação mais detalhada. O rótulo exibia uma imensa e desanimadora relação de vitaminas, que não resistia ao asqueroso e pior nome que uma vitamina já possuiu: ‘Óleo de fígado de bacalhau’. Isso virou sinônimo de coisa ruim.
Para piorar — que sempre é possível piorar as coisas — o tônico trazia a figura de um senhor transportando um imenso peixe nas costas. O sofrimento chegava ao paroxismo quando o líquido era ingerido. De sabor inenarrável e viscosidade gosmenta, o negócio ficava difícil de ingerir, a imagem do bacalhau abatido tornava a tarefa quase impossível. Eu engolia isso como um ganso alimentado à força.
Esse tipo de beberagem remete ao Merthiolate que ardia ou, voltando mais, à medicina medieval, quando a cura era mais assustadora que a doença.
Hoje, apesar do péssimo nome e da figura exibida, o fortificante oferece os deliciosos sabores laranja e morango. Entretanto, ainda é uma extração do animal, portanto, de difícil ingestão.
Tudo o que era sofrível, tosco e mal-acabado ganhou os termos atenuadores “raiz" ou “vintage”. Como se fossem coisas boas, se escondem em: naquele tempo era melhor, bons tempos, aquilo é que era bom, etc. Disfarçados nessa idealização do passado estão: o Óleo de fígado de bacalhau e o Merthiolate que ardia.
