🔵 ROBOCOP
Na 7ª série, a Gislaine disse que iria pegar o Ivan na saída da escola. Apesar de, boa de briga, ser o suficiente para espancar o pobre do Ivan, ela reforçou o time: chamou a irmã mais forte. A irmã da Gislaine era um exemplar de mulher empoderada. A menina botou nosso pequeno Ivan para correr. O aluno teve muito tempo para refletir e calcular as chances de incolumidade e sobrevivência. A reflexão e o instinto recomendaram que fugisse pela janela.
O escapismo foi tão espetacular quanto vergonhoso e serviu como munição infinita para a crueldade infantil. O que ninguém esperava é que os mesmos alunos que cooperaram para a fuga zoariam o Ivan até o fim daquele ano.
Ivan vinha à escola caminhando como um alicate aberto, todo paramentado, como quem sempre está pronto para uma guerra. Para torná-lo uma figura notada a quilômetros, um colete cervical de metal transformava seu andar numa movimentação geométrica e mecanizada. Por onde passava, abria-se uma clareira; para um melhor deslocamento, deveria ser construída uma avenida, bem como pavimentada.
Pois um espírito de porco aproveitou a cultura pop da época e apelidou-o de ROBOCOP. Na verdade, aquilo foi um batismo, porque acredito que até a mãe do Ivan passou a chamá-lo de ROBOCOP. Aquilo era o “bullying” elevado ao estado da arte!
Quando havia a ameaça “te espero na saída” era a iminência de um evento mais aguardado que as aulas de Matemática. O sinal se tornava nosso gongo e um código secreto de que as diferenças no nosso “mundinho cão” seriam resolvidas de acordo com leis tácitas.
Como estratégia de guerra, às vezes é preciso fazer como o Ivan, o ROBOCOP, fez lá na 7ª série: uma fuga pela janela. Ele teve que avaliar a força do inimigo e optar por uma saída embaraçosa, sim, mas necessária.
Talvez, alguns hematomas provocados por uma lendária surra feminina não deixassem igual estrago ao da humilhação e vergonha da covardia de ter escapado pela janela da sala de aula. Ainda mais, quem era conhecido como: ROBOCOP.
