🔵 Senhor Porco


Suíno. Aquele apelido era o suficiente para nos convencer que as aulas de Geografia não tinham sido em vão. Aquele garoto tinha uma aparência de dono de banco, pelo menos dentro do arquétipo que passava pela minha cabeça do que era um banqueiro.


Mas o Suíno era incólume aos insultos dos alunos daquela sala de aula. Naquele tempo, ele carregava a aparência de um sujeito bem abastado e bem alimentado; nós, magrinhos, pelo contrário, só podíamos ser mal alimentados, portanto, pobres. Para corroborar aqueles conceitos superficiais, nós enfrentávamos a fila da sopa; enquanto o Suíno saía da cantina com uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e um chocolate ‘Surpresa’. Para aumentar aquela humilhação, às vezes vinha de carro e tirava boas notas. Maldito! 


No entanto, todos fomos abandonados numa escola pública, e isso nos igualava. Nós, do depósito de alunos, contemplados com o ensino obrigatório, éramos um punhado de vítimas da Reserva de Mercado, confinados no Terceiro Mundo; enquanto Suíno desfilava com relógio G-shock, caneta 20 cores e tênis importado, tudo vindo importado do Paraguai ou da Galeria Pajé. Entretanto, para nós, luta de classes era 7ªB contra 7ªA, 6ªC, 8ª… 


O Suíno ter vindo parar naquele sumidouro de cérebros e fábrica de analfabetos funcionais, só podia ser produto da hiperinflação. Certamente, ele devia ter algum irmão que largou as aulas de inglês e piano. 


Ele deveria possuir um nome muito nobre, do tipo tradicional e terminado com Filho, Neto ou algum número ordinal: Segundo, Terceiro. Entretanto, naquele colégio público ele era o Suíno. Entre o Orêia, o Zóio, o Feijão…


 


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