🔵 A Capitania Hereditária
Eu estava bitolado no vestibular para cursar Jornalismo. História era uma das matérias cobradas. Apesar de gostar da matéria, precisava desintoxicar da imersão que havia feito nos últimos meses.
Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1998, eis a oportunidade perfeita para eu interromper temporariamente os estudos: vendo um “futibinha”, bebendo um chope gelado, jogando conversa fora e, quem sabe, gritando uns gols.
Meu amigo teve a ideia de assistir à partida no litoral de São Paulo. Por que não? Um excelente motivo para cancelar a infeliz aventura, seria evitar descer a Serra numa motinho 125 cc e subi-la, provavelmente, levemente embriagado. Mas a precária e atribulada decisão venceu quaisquer critérios de segurança.
A viagem foi tranquila, apesar de barulhenta e, confesso, como o meu amigo era motoboy, me senti uma mercadoria que precisava ser entregue em tempo recorde. Desafiando caminhões e cortando carros, chegamos.
Ir numa moto 125 era o menor dos problemas. O principal problema foi descoberto na Baixada. Como eu havia me afundado na História, tudo era motivo para explicar o significado, a trajetória, os acontecimentos, a importância de alguns imóveis tombados e cada acidente geográfico da região histórica. Acho que agi como um guia turístico que não foi solicitado, mas valeu pela revisão empírica.
No meu universo particular, eu estava na Capitania Hereditária de São Vicente da Terra de Vera Cruz. E, nessa paranoia, eu não poderia ser contrariado. Jamais! Tudo o que vi, necessitava urgente de reconstrução histórica. Se eu não fizesse urgentemente, ninguém iria fazê-lo, nem o CONDEPHAAT.
Nessa loucura histórica, o Monte Serrat voltou a ser a Bolsa do Café, o Porto de Santos a ter um inacreditável mercado de escravos e Martim Afonso de Sousa acabara de fundar a primeira cidade do Brasil: a vizinha São Vicente.
Voltei para 1998 quando o jogo começou. Final da partida: 2 a 0. O Corinthians venceu o campeonato daquele ano e eu passei no vestibular do ano seguinte.
