🔵 Ela é bailarina, eu sou funcionário
É uma experiência estranha martelar e serrar ao som de Tchaikovsky em vez de Katinguelê, no entanto, eu já fiz isso. A um passo do mundo de palco, luzes, música clássica, fantasias, bailarinas e palmas, me sentia como um pipoqueiro na porta de um teatro da Broadway.
Sempre soube que o objetivo era uma excelente estrutura para a apresentação de balé, por isso, juro, sempre martelei cada prego, carreguei alguma coisa ou colei — mesmo que com fita crepe — algo tendo a absoluta certeza que o sucesso da apresentação dependia de mim, em vez das bailarinas — com anos de estudos e meses de ensaio.
Tenho que admitir o que sempre pareceu óbvio: o trabalho de engenharia, mais cerebral, ficava com outras pessoas, mas justiça seja feita, eu era, digamos… esforçado. Além de tudo, fora o sangue derramado e alguns perrengues passados, o período de “brainstorming" e execução eram sensacionais, sobretudo pelas cervejas revigorantes.
Finalmente a grande noite, o espetáculo. Acho que as bailarinas me viam como alguém estranho, um intruso, finalmente limpo, perfumado e com “roupa de sair”. Sinceramente, eu me sentia como um mendigo de cartola e fraque.
Mas o trabalho não havia acabado. A correria atrás do palco era incessante. Entre tules, cetins e lantejoulas, eu corria — abrindo espaço entre as bailarinas irreconhecíveis por causa das fantasias e maquiagens. Só descansava no alto (atrás do palco), ao som de música clássica, me sentindo o Fantasma da Ópera ou o Corcunda de Notre Dame. Ainda bem que a luz não me expunha, porque iria revelar uma face melancólica.
Ao final de tudo, tínhamos o merecido descanso. Os peões parabenizavam as bailarinas pelo espetáculo; elas talvez nos parabenizassem, sei lá, por uma madeira bem pregada, um fio bem isolado, um parafuso bem apertado ou um linóleo bem esticado. Mas tudo bem, o importante é que nos sentíamos parte daquilo — furando a fila, entrando de penetra ou cortando o caminho para o mundo do espetáculo. E na confraternização teríamos direito a pizza. Aliás, é como tudo acaba.
Para as bailarinas o mundo dos sonhos é dançando; para o funcionário, é dormindo.
