🔵 Gláucia


 

Gláucia lembrava gelo até no nome. Era aquela menina que sentava lá na frente, perigosamente perto da professora e da lousa, que sempre foi prudente manter uma distância segura, ficando longe de equações e problemas por resolver. Ela só era vista mais de perto nos corredores e no pátio, durante o recreio. Mas a repetência da 6ª série serviu para colocá-la na minha frente.


Encontrei algo que me pouparia de um trabalho que nem sequer eu imaginaria ter. Aquele caderno repleto de poesias me ajudou na aproximação. O material era muito bom, mas incompatível com a minha gritante impossibilidade de reproduzir o conteúdo. Portanto, seria difícil sustentar aquela farsa.


Eu mantive a máscara de falsário dos versos por tempo suficiente para sentar na mesa imediatamente atrás, para manter longas conversas. Minha carreira de poeta não teria vida longa. Em casa, pude testar, nunca fui convincente com minhas mentiras, então, eu sabia que não conseguiria garantir por muito tempo que os escritos eram de minha autoria.


Nunca soube nem quis saber quem era meu hospedeiro, portanto, parasitei aquelas rimas com o único encorajamento de que o fim justifique os meios. No entanto, as avaliações de Português insistiam em escancarar que era insustentável aquela fantasia de pequeno Carlos Drummond de Andrade. As minhas notas não eram compatíveis com os poemas daquele caderno, porém, eu não podia estragar a ilusão da Gláucia achando que era a musa inspiradora de parte daqueles escritos.


Gláucia desapareceu, antes que eu passasse vergonha. Meus dias de talento precoce daquela arte passaram sem que eu fosse desmascarado. No entanto, ela pareceu ignorar meus esforços como impostor no ramo das Letras e sumiu…


Meus dias como artífice das palavras acabaram, Gláucia foi embora, levando o caderno. Para eu não me sentir um poeta abandonado pela sua musa inspiradora era melhor pensar que um plano econômico bem sucedido ou Deus teve piedade da sua alma e tirou-a do ensino público guarulhense.


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