🔵 A Ilha da Fantasia
Aquilo não era uma ilha, mas era alguma cerveja cercada por muita sede. O imóvel era, injustamente, chamado de restaurante, talvez por causa do salão grande com pé-direito alto. Porém, uma mesa de sinuca com feltro grudento, madeira estufada e tacos disformes não disfarçavam aquele ambiente de boteco.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós, era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho.
Isso parecia péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar novamente. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga; e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, ir a um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele, era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com o pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por sabermos jogar naquela porcaria. O mau atendimento até que tinha um lado cômico. A preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário; bem como, o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concediam uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
No entanto, o Português faleceu. Talvez, agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
*
Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na “Ilha da Fantasia" (o restaurante) e íamos para a “Távola Redonda” (uma mesa velha de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
