🔵 As meninas dançarinas


 


Chegamos atrasados, mas o show não havia começado. A sorte foi não precisar de lugar para sentar. As alternativas eram ficar em pé ou sentado no chão ao lado e na mesma altura do palco. Foi simplesmente o melhor lugar para se assistir a um show musical: o 14 Bis.


Parecia interessante testemunhar a tensão de um show. Estávamos tão próximos, que os impropérios  de dois músicos pareciam endereçados a nós. Entretanto, era o “roadie” que, entre fios e botões, recebia os xingamentos, procurando a regulagem ideal do som.


Ver uma apresentação tão próximo do palco era uma experiência única, mas também frustrante, porque eu estava acostumado a assistir, de longe, a uma perfeita ilusão. Contudo, pelo contrário, o que testemunhei foi o conjunto musical, cujas letras falam de futuro, esperança e amor, distribuindo farto repertório de palavrões para o pobre funcionário. 


Sendo assim, a magia da música e seus significados perderam sua magia, e tudo parecia uma fábrica de salsichas. Diria mais, eu paguei para testemunhar o guitarrista e o baixista agindo como quem briga no trânsito ou em um boteco. Jamais pagaria para isso. A decepção foi como visitar a cozinha de um restaurante francês e encontrar larvas, ratos e baratas.


Enquanto isso, algo longe do concerto chamava mais a atenção. Duas moças dançavam: descalças, cabelos compridos soltos e  roupas indianas, ou seja, um jeitinho de anacronismo “hippie”. As duas pareciam estar num transe, numa dança pagã, reverenciando a Lua e rodeando uma fogueira imaginária. Confesso, aquilo estava muito mais interessante que o show do 14 Bis e seu festival de perfeccionismo de conservatório.


O ineditismo e a inesperada performance foi notada pelo 14 Bis, de modo que o humilde “roadie" teve um descanso merecido. Suspeito até que o incrível número de dança ocupou a atenção do sujeito. Enfim, o técnico, depois de “comer o pão que o diabo amassou”, teve seu  sossego, assistindo de graça a um show na hora do trabalho.


Justamente quando fiquei no pé do palco, teoricamente no melhor lugar, o verdadeiro espetáculo estava na plateia.


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