🔵 Caminhando na ponta dos pés


 


Tudo começou estranho. Em vez de boteco ou bar com banda ao vivo era quadra de escola de samba. Eu deduzi que a noite seria longa, pois teria que fingir gostar dos batuques carnavalescos. Em nome do feriado e da festa, já arrisquei agitar os polegares e enroscar as pernas — como um gringo — ao ritmo do samba.


Dessa vez não tinha nem chope grátis no endereço beirando a Marginal Tietê. Quando começaram as performances das agremiações, logo vi que a noite seria realmente interminável. Rodopiando vinham porta-bandeiras da Gaviões da Fiel, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real, Rosas de Ouro (onde eu estava) etc. Cada vez que a porta-bandeira parava e oferecia o pavilhão, eu tinha que beijar a bandeira e fazer uma reverência, conforme observei, quase como se o pendão  fosse um objeto sagrado e eu, um malandro carioca dos anos 20. Meu visualzinho de quem caiu ali por engano estava mais apropriado para uma ópera no Teatro Municipal. Notei que quando a porta-bandeira chegava em mim rolava uma cobrança tácita, como uma satisfação de que eu não estava no lugar errado. Diante dessa pressão, eu beijaria até a bandeira do Palmeiras!


O meu maior temor se concretizou. Como meu amigo era integrante da principal torcida uniformizada do São Paulo, junto deles fiquei. Quando o evento terminou, eu, como um torcedor do time do Morumbi, ajudei a embarcar os instrumentos musicais no ônibus. Assim fui até a sede da tal torcida, sendo ameaçado de ser entregue como um corintiano infiltrado.


Fora a ameaça, sempre foi muito bom ver a cidade à noite, iluminada artificialmente. Voltando para a perigosa realidade de um corintiano entre são-paulinos, ajudei a subir aqueles instrumentos de percussão que eram surrados todas as vezes que o time tricolor marcava um gol no meu time alvinegro. Cumpri a função com uma dedicação militar porque eu sairia no lucro se continuasse disfarçado, mantendo minha incolumidade física.


Me sentir um gringo no meu país foi o menor dos problemas, quando a sobrevivência dependia de não ser descoberto como corintiano infiltrado na principal torcida do São Paulo.


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