🔵 Dia de rei


 


Depois de um dia inteiro na rua, jogando bola e empinando pipa, imundo de dar dó, não resisti em prontamente aceitar o convite para uma pizza. 


Minha irmã e meu cunhado, não sei se tocados pelo sentimento da caridade, solidariedade ou simplesmente por não ter o que dizer para despistar o pirralho maltrapilho, resolveram arriscar o convite. Eu, calculando que a proposta poderia não se repetir, não declinei da oferta irrecusável. Me voluntariei para devorar aquele prato italiano.

.

Fomos à melhor pizzaria do bairro. Hoje, tenho certeza que, naquele estado, eu não reuniria condições sequer para frequentar o boteco mais sujo que encontrasse, muito menos ousaria pisar na calçada do restaurante. Entretanto, a fome bloqueou o raciocínio, de modo que, orgulhosamente, subi a escadaria, puxei a cadeira e aguardei os serviços da casa como um rei.


Estávamos apenas nós no salão, mas eu não me intimidei e, guiado pelo estômago, monopolizei a redonda. O único detalhe que incomodou e, ao mesmo tempo, divertiu foi o fiel acompanhamento, a cada mordida, do garçom. Isso deu a sensação de que estávamos sendo observados, o que não deixava de ser verdade. 


Porém, será que a “marcação” do garçom não era por que a minha apresentação destoava muito das condições da casa? Talvez achassem que o casal estivesse enchendo a barriga de um menor infrator ou um morador de rua. Sendo mais verossímil a segunda suspeita, talvez atribuíssem a mim a debandada dos clientes, por isso a baixa frequência daquele sábado de noite.


Concordo que meu traje, bem como meu asseio não eram adequados para a ocasião, mas eu estava no bairro que me presenciou caindo de bicicleta, rachando a cabeça num jogo de futebol, sangrando ao arrancar a “tampa” do dedão do pé, tropeçando na arquibancada da escola e quebrando um dente no paralelepípedo. Deveria ter encarado a ida àquele restaurante italiano como algo digno do proprietário daquelas terras, não como uma concessão, pois aquelas ruas, vielas, praças e avenidas testemunharam o meu crescimento.

 

Agora, eu pisava no Gruta Vermelha — a espelunca que chegou depois de mim — e não era pra me esconder nem para ficar com vergonha.



Postagens mais visitadas deste blog

🔵 236-0873

Curtindo a vida adoidado

Pamonha