🔵 Jovem aprendiz
Depois de varrer o chão, eu tinha que organizar a banca com as couves-flores. Mesmo sem experiência, expus os que a intuição sinalizava que eram os melhores exemplares. Como quase a totalidade das freguesas era do bairro e conhecia minha mãe, acho que faziam vistas grossas quanto ao meu desconhecimento das hortaliças. Entretanto, os dirigentes do sacolão me deixaram responsável pela banquinha das couves.
Os meus parcos conhecimentos eram inversamente proporcionais ao entusiasmo e dedicação por ser o responsável pela banquinha da couve-flor daquele sacolão de periferia. Toda aquela autoconfiança apenas era um disfarce que tinha o potencial para arruinar os almoços das cercanias.
Mas eu seguia fazendo cara de quem estava acostumado a oferecer os melhores vegetais selecionados, colhidos nas melhores lavouras, fresquinhos, direto do produtor para o consumidor. Mais ou menos com esse discursinho picareta e pré-fabricado, eu fiz meu marketing infantil eivado de platitudes que minhas freguesas fingiam acreditar para não contrariar um jovem aprendiz.
Contudo, minha brincadeira de feirante não durou muito tempo. Então, era hora de calcular as obrigações trabalhistas. Tudo isso era novidade para mim, que estava acostumado a lidar com irresponsabilidades pueris.
O “batismo de fogo” foi ter que lidar com um caloteiro, quase que literalmente alguém que tira doce de criança. Diante da impossibilidade de resolução, enviei meu míssil mais destruidor: minha mãe. O caloteiro teria que saber o que é obedecê-la.
Sem querer, eu estava acionando uma mamãe onça disposta a defender sua cria. Nesse momento, eu tive certeza: meu empregador fecharia um acordo para pagar uma aposentadoria vitalícia, tudo para se livrar da cobrança materna.
A fúria da genitora, a responsabilidade social e obrigações trabalhistas moveram uma força desconhecida. A ironia do destino fez que um litígio entre patrão e empregado fosse resolvido por uma mãe sedenta por vingança e acostumada com discussões de reuniões de pais e mestres.
