🔵 Raiva e tristeza


 Assistir ao Corinthians sendo rebaixado traria um  drama somente visto em capítulo final de novela mexicana e confirmaria a tese que o corintiano é sofredor. Entretanto, o que poderia ser o grandioso pior momento da história do clube, reservava a esperança de simbolizar a derradeira salvação. Então, fui ao Parque São Jorge.


O  espaço armado para a torcida era estrategicamente localizado ao lado da lanchonete. Havia mais gente do que eu previa, bem como  uma turminha da temida torcida uniformizada. O clima geral era bom, e a expectativa, muito positiva. Alguns repórteres e fotógrafos esperavam, como sempre, entrevistar algum corintiano revoltado ou em prantos. Isso, provavelmente, venderia muitos jornais, revistas e renderia matérias dramáticas.


O Timão, em 2007, tinha uma equipe que não fazia jus ao apelido. Além de estar jogando muito mal, dependíamos de outro jogo. As garrafas de cerveja foram esvaziando, o álcool correndo no sangue da galera, os semblantes de preocupação se instalando e  algumas unhas sendo roídas, e os jornalistas se preparando para uma longa jornada de trabalho.


Fim da partida. Caiu para a Segunda Divisão! Série B! Rebaixado! Teimosamente, isso não era esperado para aquele 2 de dezembro. O  clima de catatonia e incredulidade impedia a movimentação, exceto dos repórteres. Até voar a primeira cadeira. O clima de indignação tomou conta. A equipe, a diretoria e a comissão técnica estavam muito longe para a torcida descontar toda a sua fúria, diferentemente da sala da diretoria, sala de troféus, lanchonete etc.


Ao primeiro sinal, a revolta foi geral. Como o clube era o único objeto “danificável” que representasse a revolta corintiana, em pouco tempo a rua São Jorge, 777 estava lotada de “corintiano, maloqueiro e sofredor” e policiais. 


Os jornalistas estavam à caça de uma imagem de alguém chorando, xingando ou quebrando tudo. Concluí que não seria uma boa sair na capa de jornais esportivos com a legenda: Vive um drama! Tampouco me orgulharia ser reconhecido como o “cara do Globo Esporte”. Me afastei de tudo aquilo. 


Eu até que demorei para sair do pior lugar do mundo para estar naquele momento: a representação do fracasso futebolístico.



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