A estética do choro
A iconografia de alguém que expõe seu momento de fraqueza por não ter mais o que fazer, ao invés de revelar fraqueza, demonstra uma incrível força. Pelo menos, nos dias atuais.
Não precisa agir, é só derramar algumas lágrimas, assim, demonstra-se empatia. Fazer algo concreto é para fracassados, rende muito mais dividendos exibir-se sensível.
Se as lágrimas não vierem, embargue a pronúncia, pisque grosso e enxugue uma lágrima inexistente. Esta receita tem o poder de emocionar até o Chico Picadinho. Se for na TV, uma trilha sonora triste torna a farsa imbatível!
A mesma estratégia anterior, mas sem o auxílio luxuoso do fundo musical, é parar dramaticamente e beber um gole d’água. Este subterfúgio substitui todo o “misancene” necessário para simular um pranto. Entretanto, é bom que se diga, é recomendado um alto teor de mau-caratismo para que se obtenha os resultados esperados.
Nos esportes, sobretudo no futebol, o choro sinaliza um comprometimento com o time, o amor ao clube, que quem está no campo é igualzinho você, que está assistindo ao jogo. Mas o gesto emotivo tem que ser acintoso, para que seja percebido da arquibancada. Detalhe: fingir que sofreu o baque vale a festa, o camarote bem frequentado, a garrafa de whisky e os mais recentes melhores amigos de infância.
Porém, não se deve demonstrar fraqueza antes de cobranças de pênaltis. Aí já é demais, pega super mal.
Com uma distância segura do morro, disseram que a ação da Polícia na megaoperação do Rio de Janeiro foi um desastre e que tudo poderia ser feito sem um tiro sequer. Como? Não se sabe como, aí é querer demais. Percebe, alguém surgiu com uma “solução” pacifista. Isso rende uma aura santificada que nem sequer 50 anos de budismo consegue.
No entanto, também houve aqueles que não puderam apresentar seu showzinho de comoção pública, mas apressaram-se em avisar que choraram. Deve ter sido sem plateia, no banho e em posição fetal. Ah bom!
A solução definitiva: basta chorar ou criar um instituto chamado “Sou da Paz". Pronto, não precisa de mais nada!
