🔵 Cão


 Aquele cãozinho tomou conta do portão, como se exigisse que fosse recolhido para onde teria água fresca e refeição na temperatura correta, inclusive, banhos e vacinas. Ele simplesmente exigiu o que julgou ter o direito, ou seja, fazer parte da família. Portanto, faria de tudo para ter seus caprichos atendidos.

 O que salvou aquele exemplar foi a aparência que, vencendo as competições do “Kennel club”, poderia render um bom dinheiro. De pelagem lustrosa, ossatura firme, peito proeminente, crânio protuberante, postura empertigada, pimpão, saltitante, pirilampo e serelepe, o aprumado animal ganhou um lar por onde reinaria eternamente e manteria uma família inteira sob escravidão.

Aquele ‘fox paulistinha’ pretinho era um fracasso: não executava truques, nem mesmo oferecia a pata. Mas aqueles olhos esbugalhados cortavam o coração só de imaginá-lo terminando seus dias magro e levando chutes, na porta de um açougue, implorando por bifes ou ingerindo proteína contaminada. Isso não era justo!

Mal sabia, eu acabara de admitir para o núcleo da família um mamífero, simpático, mas que me obrigaria a abrir
portas, com um simples olhar. Com a mesma indiferença, ele ignorava meus chamados quando descobria que eu não jogaria algum pedaço de comida ou ingrediente.

Já resignado de que aquele animal não obedeceria minhas ordens, eu aproveitava meu acesso a doces e carnes para reter a sua atenção. Assim, em alguns momentos, eu conseguia prolongar sua subserviência interesseira. Isso era o suficiente para eu acreditar que conseguia conquistar sua obediência.

Sem noção de sua pequenez, mas com fidelidade literalmente canina, ele defendia o seu perímetro de lar duramente conquistado. Essa atitude irracional levava a querer acreditar que aquele cachorro veio equipado com uma bravura atávica dos seus ancestrais, os lobos.

O carinha folgado botou as quatro patas onde não era chamado. Mas não precisava, ele tinha, digamos… razão.

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