🔵 "Fogos e artifícios"
A musiquinha antiga, o reflexo e os estalos da fogueira no fundo do quintal indicavam: a festinha junina havia começado.
Nós também fingiríamos que celebraríamos a boa colheita do milho ou o solstício de inverno; entretanto, aquilo tudo era uma farsa, aquela reprodução de roça se passava em Guarulhos, e não era a natureza que provinha nossos víveres, mas sim o supermercado. Então, o argumento que daria razão para nossa família frequentar aquela celebração aparentemente pagã era manter a tradição e cultuar um santo católico. Pronto.
Depois do portão, seria permitido dar vazão à minha sanha incendiária, manipular o fogo e alimentar a fogueira com objetos inflamáveis. Ali, o impulso piromaníaco infantil era tolerado.
Antes de ser crime ambiental, a soltura do balão era a vedete da festinha. Mesmo que acionasse a Guarda Florestal ou uma viatura do Corpo de Bombeiros, alguns hectares de devastação da Serra da Cantareira garantiam que festejássemos impunemente nosso convescote santo. Afinal, o que poderia significar o desmatamento da Mata Atlântica perante a homenagem a São João?
O sacrifício de um pedaço daquele bioma não era nada para que alguns guarulhenses tivessem o direito de brincar com fogo. A beleza de um balão era o bastante para cegar-nos diante de tanto encantamento, bem como quanto a responsabilidade de uma possível catástrofe florestal.
Mas, para uma criança, qualquer coisa justificava quando se estava em jogo um saquinho de pipocas e uma paçoca, portanto, eu achava justo assistir a uma queimada de proporções bíblicas consumindo a Mata Atlântica em troca de guloseimas de graça.
Então, a Lei da Gravidade estragava o espetáculo e iniciava um drama que culminaria com um caminhão do Corpo de Bombeiros vindo a mil por hora e com a sirene berrando.
No final da festinha, o braseiro já havia hipnotizado alguns, e o velho ditado "puxar a brasa para a minha sardinha” era literalmente levado a sério.
Incinerar sardinhas na churrasqueira e incendiar uma floresta numa celebração cristã! No fim, a justificativa divina livrava todo o peso que poderíamos carregar na consciência. Afinal, nos anos 80 era comum lançar uma voadora tocha incandescente, cercada de velas flamejantes, e depois assistir “ao morro” ardendo em chamas.
