Quem lacra não lucra


 

Quando criança, aprendi uma lição: somente no chão do meu quintal, descobri que a nave espacial do Playmobil não voava como na televisão. Sem computação gráfica, jogo de câmeras ou truque de espelhos, aquele brinquedo perdeu toda a magia, mas eu compensei a falta de recursos técnicos com alguma imaginação. Apesar da supervisão de um adulto, fui iludido e chorei, mas foi só nesse episódio.


Nos últimos anos, ignoraram que é aprendendo cedo e de maneira lúdica que se sabe que o mundo não é fantasioso como nas propagandas de TV. As agências de marketing e propaganda quiseram ajustar os comerciais, ou seja, com a intenção de mostrar a realidade, limitaram a própria criatividade e a imaginação do consumidor.


E assim foi, em comerciais, filmes, desenhos, tudo. Mesmo fora de contexto, nos filmes sempre aparecia uma mensagem para ser um “ser humano melhor”; nas propagandas também: mesmo que prejudicando os negócios, eram eliminados estereótipos de beleza quase inalcançáveis e infiltradas mensagens de engenharia social, disfarçadas de comportamentais. Contudo, o que sempre soou artificial e escancarou o, quase obrigatório, cumprimento de uma agenda é o aspecto de “dedo na cara”, tom professoral, corrigenda e sinalização de virtude.


A marca de jeans ‘American Eagle’ lançou uma propaganda considerada polêmica. Foi considerada polêmica, apenas por ser raiz; ou seja, um possante Mustang e uma moça bonita foram suficientes para atiçar batalhões lacradores sedentos por sangue e indenizações.


A lacração forçada não é nada mais que um reposicionamento de marca, só que com efeito contrário. As marcas quiseram lacrar quando os números eram favoráveis, ou seja, mexeram em time que estava ganhando. Marcas como Bud Light e Jaguar, não se sabe se por liberalidade do departamento de marketing ou erro de estratégia da diretoria, exageraram na lacração. A cervejaria viu a cotação e o consumo despencarem; a grife automotiva abandonou seu público-alvo com uma peça publicitária com a estética de um anúncio de moda.


Quando criança, eu deveria refletir o que os publicitários esperavam da média do público infantil com aquela  idade: que seria tapeado com aquele tipo de propaganda: aeronaves de plástico que voam. Por outro lado, eu não teria o menor interesse em ver uma mão manipulando o brinquedo, enquanto fazia a onomatopeia de tiros e manobras espaciais. Inconscientemente, eu queria ver o impossível naquela tela.


Do mesmo jeito, um marmanjo deseja manter a doce ilusão de ser atendido no bar pela miss primavera de decote, mesmo sabendo que é o Barba quem faz o serviço; e a sua esposa quer se sentir a Sydney Sweeney naquele jeans.



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