🔵 Campo minado


 

Da arquibancada do Pacaembu, eu via uma aglomeração de torcedores no morro. O acesso devia ser difícil, de modo que aquela cena desviava a minha atenção do jogo de futebol. Numa reflexão social, eu me perguntava: Que tipo de gente é capaz de

assistir ao jogo dali?


***                   ***


Havia vários níveis econômicos para assistir a um jogo do Corinthians no Pacaembu: eu optei pelo “Pacote Miserabilidade”. Aquele terreno era a última alternativa para ver um jogo de graça, mas reunia um tipo de torcedor que fica sem refeição, mas não deixa de acompanhar o “Curíntia”. Pois é, eu arrumei a minha vaga para ver um pedacinho do campo.


Invadi o terreno e arrisquei a minha vida para ver um espacinho do gramado de graça. Aquela talvez tenha sido a pior modalidade de “alpinismo social” da história, porque quanto mais eu subia o morro, mais era evidente o sacrifício que eu era capaz de fazer para economizar o dinheiro do ingresso e sustentar o vício.


Pronto. Para exercer meu corintianismo indébito, havia me submetido à arquibancada dos excluídos. Subi com a certeza de que na ribanceira só haveria alvinegros, bem como ali era um espaço democrático, por contemplar uma classe social sem acesso ao pão, mas que não abria mão do circo.


A ocupação corintiana não reivindicava a reforma agrária, senão um único golzinho dentro do nosso campo de visão. Então, a justiça social veio, depois de muita torcida, com o gol e a vitória.


O animado coletivo do penhasco era um movimento dos sem-estádio, que tinha o potencial para se tornar uma torcida organizada. Entretanto, aquele quilombo futebolístico era a resistência marginalizada, nosso pedaço de terra com vista para o Estádio Paulo Machado de Carvalho


No terreno baldio não havia espaço para as mentes capitalistas dos cambistas e vendedores de amendoim. Nossa torcida desuniformizada era ilegal, transgressora e clandestina, mas fanática. 




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