🔵 A gata de Brotas


 

Este é o típico texto que só existe porque o título não pode, nunca, em hipótese nenhuma, ser desperdiçado.


Eu e ela fugimos do carnaval de rua de São Paulo e fomos acampar em Brotas. Vivíamos tempos da manifestação da alegria de plástico e da escatologia explícita a céu aberto, mas ainda não do bloco do roubo de celular. Além disso, como sou um brasileiro farsante, a fuga evitaria que descobrissem que sambo como um turista alemão ou japonês.


Nossa participação no gênero musical se limitava a “dedinhos para o alto”. Com a total ausência do dom e habilidade na cultura popular, do samba no pé, do squindolelê, do telecoteco, do balacobaco, do ziriguidum, do borogodó, do bumbum praticundum prucurundum e do gueri-gueri fomos nos esconder de toda manifestação da felicidade de isopor, antes que confiscassem nosso crachá de brasileiro legítimo.


Sem a malandragem malemolente, o orgulho do jeitinho brasileiro, a gambiarra moral ou o “tá tudo dominado”, restava o autoexílio, o degredo voluntário. Fomos banidos tacitamente da sociedade onde a bruxa estaria solta. Sob o eufemismo de “recarregar a bateria”, nos afastamos de qualquer sinal de confete, serpentina, marchinhas e folia carnavalesca e deixamos a cidade.


No interior de São Paulo, interrompendo o nosso “retiro espiritual”, um ônibus lotado chegou com o potencial de um baile funk. Mesmo sem encomendarmos, o Carnaval veio até nós. Falatório, gritos, brigas, correria e sambas-enredo acompanharam o desembarque.


Entretanto, tornando o barulho tolerável, a Patrícia Lucchesi desceu do ônibus da alegria. Com muitos anos de atraso dos bons tempos, a modelo e atriz desfilou como o destaque, a porta-bandeira ou uma Rainha da Bateria de última hora num camping de Brotas! A subcelebridade de grife estrelou o feriado carnavalesco. 


O título desta crônica foi inspirado na famosa fábula de Charles Perrault. 



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