🔵 Jornais para embrulhar peixes e bananas


Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria para resgatá-los. Vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto, velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém, novos para embrulhar peixes e bananas.


Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola. Minha pequena ascensão social significava o meu deslocamento da fila da sopa para a fila da cantina.


O trabalho duro no fim de semana era precocemente capitalista, embora lúdico e voluntário. Atualmente seria considerado “trabalho infantil”, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela Prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem folheados. Com esse ritual, não deixava escapar as principais reportagens, colunas, opiniões, suplementos de cultura, esportes e, lógico, as tirinhas. Após minha pueril triagem, a Folha de São Paulo e o Estadão cumpririam uma função menos nobre.


Na feira-livre de domingo, não sei por qual motivo, eu conseguia obter excelentes negociações, portanto, realizar o meu comércio com certa vantagem: talvez fosse romântica a imagem de um garotinho arrastando um carrinho cheio de jornais velhos entre frutas, legumes e verduras.


A tentação das barracas de pastel e caldo de cana não seria capaz de fazer eu desembolsar meu rico dinheirinho recém-conquistado com meus jornais; meu objetivo era exibir pelo pátio, quadra, corredor e sala de aula da escola um copo de Coca em uma mão, uma esfirra de carne na outra e o bolso cheio de balas.


 

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