🔵 Velocidade máxima
O ônibus estava lotado, com a porta aberta e gente pendurada do lado de fora. Vendo a cena, as pessoas do ponto desprezavam o veículo. Para mim, era o momento ideal para o embarque.
Provavelmente, aquela viagem de ônibus significava a precariedade do transporte público, mas eu compraria um passaporte para ficar pendurado do lado de fora, vendo a roda girando no asfalto. Nem o risco de decapitação me impediria de “deitar o cabelo” e sentir o vento no rosto.
Para os demais passageiros, ir ao trabalho pendurado com a porta aberta, do lado de fora, era a forma mais humilhante para se deslocar; para mim, aquela sessão matinal de risco de vida urbano era algo ansiosamente esperado, a melhor parte do dia.
Um motorista irresponsável, a ausência de fiscais, mais a minha imaturidade, eram a combinação para o dia começar com um trágico acidente; no entanto, o meu ônibus velho proporcionava uma experiência muito melhor que ficar assistindo aos acontecimentos da rua ou acompanhar o “piloto” lutando para movimentar aquela geringonça. Somente o risco de terminar o dia me esfolando na pista para parar de concentrar na barulheira do motor, bem como na lentidão do carro.
O “surf rodoviário” era ilegal sob os olhos da Justiça, entretanto, altamente aguardado por um garoto. A iminência de um acidente era ignorada e interrompida pelos semáforos e pontos de ônibus.
Com o fim da atração sobre pneus, triste, eu atravessava o corredor lotado e vivia empiricamente a mazela do transporte urbano. Aquela etapa, que fazia o dia de trabalho ser mais aguardado, encerrara-se.
Infelizmente, tinha que passar pela catraca. Eu encerrava o meu passeio, descabelado como quem havia saído da montanha-russa. Pela minha diversão, deveria ser cobrado ingresso; contudo, teria que pagar pela passagem.
O condutor do ônibus deveria receber um salário tão baixo quanto o meu, pois nada mais justificava sua direção temerária que proporcionava minha pequena aventura extrema, confundida como baixo apego à vida,
