🔵 Arte cínica


 Por melhor que seja, a impressão é que a representação teatral não passe de uma pecinha escolar. Ir ao teatro é enfrentar uma plateia “blasé”, que se acha “antenada”, superior culturalmente. Pior, esse tipo de público faz questão de esfregar na cara que você não deve fazer a mínima ideia do que foi assistir ali. Um pessoalzinho descolado, engajado e citando peças obscuras — dessas que nem a turminha do Metrópolis conhece.


Inadvertidamente, fomos convidados ao covil mais “underground” de teatro que pode existir.


No Teatro de Bolso da Vila Madalena, aquele público “cabeça” olhava para nossa cara como se tivéssemos errado o endereço do “stand-up comedy”. Pronto, éramos o alívio cômico perfeito do templo do entretenimento para poucos. Mesmo assim, arriscamos nos submeter ao critério daquela “gente fina, elegante e sincera” e, automaticamente, sermos observados como uma espécie exótica. Portanto, entramos no teatrinho minúsculo, ocupamos os assentos do fundo e aguardamos a atração. Pelo estado dos nossos trajes, tenho certeza de que éramos temidos. 


Meio fora de hora, começamos nossas gargalhadas exageradas. Nosso ataque de riso tomou conta daquele tacanho ambiente. A plateia, formada por gente do teatro e a nata da vanguarda das artes cênicas paulistana, no princípio ficou incomodada com o péssimo comportamento daquela escória em ambiente tão nobre. Nossa visão turva de mundo continuava contrastando com aquele povinho que se achava mais moderno porque tinha a “cabeça aberta”.


O quão ridícula era aquela situação: aquele teatro, aqueles atores, a plateia.... Todos fingindo pertencer a uma elite cultural urbana, tendo o “privilégio” de testemunhar uma manifestação artística para poucos. Mas todos estavam ávidos para devorar um “dogão” de rua com purê, milho, ervilha e batata palha, logo vi.


Nossa insistência em gargalhar começou a ser replicada. A nova reação do diminuto público nada mais era do que a galerinha “blasé” achando que não estava entendendo alguma coisa, que o humor implícito no texto era sutil demais. Não cedemos o protagonismo. Conduzimos aquela pantomima ridícula, aquele jogral mal ensaiado até o derradeiro ato. Levamos aqueles nobres falidos para onde quisemos.


A arena teatral havia sido franqueada a uma horda acostumada a rir descontroladamente com humor pastelão, histórias rasteiras, videocassetadas e piadas de mau gosto. O resultado de estudos e ensaios foi recebido com a mesma profundidade de um capítulo do ‘Big Brother’ ou ‘A fazenda’.


Logo seríamos expelidos para o subúrbio, devolvidos ao porão cultural, garimpando no esgoto o que nos é permitido nos momentos de lazer.




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