🔵 Rolê de bike
Aquela gangue de moleques com poucos anos de idade vinha tomando a Rua 13 de Maio. Como uma nuvem de gafanhotos, a turminha corria e empinava as bicicletas típicas dos anos 80.
O filme ‘E.T.’ não saía da cabeça e fazia tudo parecer possível. Como levantar voo com as bicicletas parecia impossível, o máximo que fazíamos era dividirmos umas três garrafas de “Baré Cola”, que era o refrigerante que as esparsas moedas conseguiam servir aos ciclistas mirins, portanto, a tubaína que éramos obrigados a gostar.
Impossibilitados de obter a água negra do imperialismo estadunidense, exigíamos, com desassombrada assertividade, a pobre bebida gaseificada e carbonatada tupiniquim com uma quantidade de coliformes fecais aceitável, bem como potabilidade liberada pela vigilância sanitária. Abastecidos com alguns copos do refresco, desempilhávamos as “bikes” e seguíamos “aterrorizando” o bairro guarulhense.
Comportando-se como uma gangue de motociclistas malvados, os garotos seguiam “ameaçando” quem estivesse na frente e “apavorando” o bairro da Vila Galvão. Saltando lombadas, guias e rampas, empinando, “fritando” o pneu e, às vezes, quase atropelando pedestres distraídos, seguiam ziguezagueando as pistas e deixando vestígios de borracha, lama, graxa, peças, pele, osso, dente, sangue ou alguém no solo. As marcas do asfalto eram cicatrizadas à base de mercurocromo, merthiolate ou “bandeide”.
O que chegava como uma pequena gangue de desajustados recém saídos do reformatório e se comportando como uma horda de bárbaros que imaginavam-se aterrorizando o bairro, era, na verdade, um bando de garotos que tinham que “entrar pra tomar banho” e “vestir um casaco pra não tomar friagem”. Além disso, quase sempre, tinham “lição de casa” ou que “estudar pra prova”.
