🔵 Cada um no seu canto


 

O endereço do bairro oriental era um sindicato. Aquilo estava estranho, porém o número era aquele, então só poderia ser ali. Empurrei o portão e encontrei o teatro. O pessoal já estava reunido, então corri para classificar minha tessitura vocal.


“DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ, SI”. Repetindo as notas musicais, fui acompanhando a progressão em oitavas que a maestrina tocava ao piano. Para minha surpresa, fui classificado como “barítono”, o que me colocou junto a uma galera parecida com a “Fat Family”. Me enchi de orgulho, entretanto, isso não me fazia cantar bem, era apenas curioso e exótico. A voz, não tão grave quanto a do “baixo” e não tão aguda quanto a do “tenor”, explicava o desconforto para cantar as canções mais agudas ou populares. 


O coral com o nome ‘Luther King’ e o repertório me promoveriam automaticamente a uma igreja do Bronx, Brooklyn ou Harlem. Não poderia mais disfarçar como quem tosse ou desafina no coral da escola, da igreja ou da associação de bairro. O nome do coral e a frequência pareciam me cobrar que cantasse como o Stevie Wonder ou o Ray Charles.


Durante algum tempo, sem me incomodar, frequentei um território, altamente engajado e um pouquinho politizado, onde eu representava a minoria. Embora sem patrulhamento, devia haver um acordo tácito que estabelecia o politicamente correto. O tal empoderamento nunca foi estético, ou seja, da boca pra fora, o empoderamento era exercido de fato. Nunca fui acusado de carregar uma culpa histórica. Era uma época em que não existia essa militância intolerante nem contaminação política ou militante de rede social, portanto não havia ruptura de origem,  proporcionada pela ideologia política.


Hoje, nada disso daria certo. O clima persecutório, a vitimização, a “lacração”, a sinalização de virtude, a ditadura do politicamente correto e a atribuição, sem critério sensato, de dívida histórica, tudo isso tornaria o ambiente insuportável. No entanto, como cobrança: harmonia e afinação.



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