🔵 "Dinheiro na mão é vendaval"
O esforço que sempre foi utilizado para chutar bola e empurrar carrinhos valia dinheiro. Então, fui vender o que chamavam de força de trabalho.
Longe de ser um trabalho análogo à escravidão, mas também não era algo que fizesse me sentir à frente do meu tempo, no entanto, dava certo orgulho, aos 16 anos, ficar responsável pela coleção primavera/verão.
Prender alarme em peças de roupa era o tipo de serviço que até um robô com curto-circuito poderia fazer. No entanto, eu me sentia importante porque se minha mão de obra falhasse o trabalho sujo ficaria com o segurança da loja ou a polícia.
O pequeno arroubo capitalista mostrou que seria insuportável e explosivo o repentino poder financeiro de quem estava acostumado a comprar guloseimas.
Era a hora de celebrar o encontro do mundo encantado das compras com o poder aquisitivo, então, fui colocar minha moeda em circulação. Como “feio é comprar e não poder carregar”, enchi a mochila de camelô de bugigangas inúteis.
As liquidações, descontos, vitrines e “os anúncios luminosos que são a vida a mentir” me seduziram, mas foram os camelôs que me convenceram a comprar mais por menos.
O resultado parecia o butim de um assaltante viciado em crack: walkman “a prova d’água”, camisetas, fitas, pilhas e outras inutilidades compradas majoritariamente em camelôs, em flagrante manifestação de impulso consumista.
Como um incipiente porco capitalista, eu teria um gigantesco universo de ameaças biológicas do centro da cidade, como o Churrasco Grego, entretanto, preferi preservar o meu sistema imunológico e continuar satisfazendo meu paladar infantil na rede americana de lanchonetes que tem como mascote um palhaço bobo e com maquiagem horrível.
Enfim, fui apresentado à quase escravidão voluntária remunerada, chamada mercado de trabalho, à correria consumista, bem como ao almoço de baixo valor nutricional do “fast food”.
