🔵 Lula lá, eu aqui

 



Naquele dia, acordei mais cedo e tomei o café da manhã. Antes de sair, peguei uma pilha de “santinhos”. No panfleto, havia um sujeito barbudo e alguns escritos, dentre eles, um em destaque: “Lula lá”. Em 1989, ainda era romântico votar no PT e achar que o Lula significava o povo no poder.


Não precisei receber boletos, nem DARFs para descobrir que o Estado seria meu maior inimigo, e as estatais são “elefantes brancos” que favorecem a corrupção e expõem a ineficiência do governo. Logicamente, ainda não havia estabelecido estes conceitos, de modo que fui convencer alguns eleitores, que assinalando na cédula o nome daquele cara, que eu mal conhecia, teríamos um País melhor.


Eu não sabia, mas aquela experiência militante tinha o potencial de alterar o rumo da minha vida. O terreno era espinhoso, de modo que gás lacrimogêneo, jato d’água, cassetete, bala de borracha, algemas e camburão abririam um portal sem volta, deixariam uma ferida impossível de cicatrizar e alterariam minha incipiente personalidade para o resto da vida. Eu seria cooptado como um adepto de uma seita cujo fim é o suicídio coletivo da vontade própria. 


Nem a escola, nos anos 80, foi capaz de me tornar ávido por justiça social de gabinete. As aulas de História e Geografia não me convenceram de que éramos todos opressores ou oprimidos. A propaganda partidária da fundação do Partido Verde não me comoveu, continuei achando o feto humano mais importante do que o ovo de tartaruga.


A contestação, causada pelo choque de gerações, era facilmente anulada com um pacote de ‘Biscoitos São Luiz’ sabor chocolate; a revolta com a Igreja Católica era aplacada com a ameaça de um deus vigilante e vingativo.


Essa opção, numa encruzilhada da vida, me impediu de virar um Che Guevara de butique, vestindo sandálias de couro e calça de algodão cru, passar as tardes planejando a revolução num boteco da Vila Madalena e me entupindo de cachaça com linguiça, bem como achando Guilherme Boulos e Marcelo Freixo caras legais.


Voltando à “Boca de Urna” mirim, consegui abstrair aquela encruzilhada e vi que não ornava. A estética era péssima: eu distribuindo panfletos do PT, sorrindo e sendo retribuído com indiferença. Constatando que aquilo não era pra mim, devolvi a pilha de panfletos e segui me decepcionando com a política, mas, a partir dali, somente com a direita.


A minha alternativa foi o Collor, “o caçador de marajás". Fim.


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