🔵 Ver para crer
Malas, barracas e cinco pessoas. Tínhamos o necessário e principalmente o espírito de “hippie” de fim de semana. Também, algum espírito aventureiro e o suficiente de comida e água para enfrentar os dias de acampamento.
Partimos, esperando encontrar uma São Thomé das Letras bucólica, cercada por montanhas, habitada por adoradores de Raul Seixas e Aleister Crowley; no entanto, o primeiro contato com a cidadezinha mística foi decepcionante: uma picape tocando algo entre sertanejo e pagode. O som alto poderia indicar que estávamos a caminho de uma festa do peão, mas o cheiro de “incenso” não deixava dúvida, estávamos na trilha correta.
Acomodados na cidade dos discos voadores, saquei a única “droga” que eu tinha: um CD de música boliviana, comprado de um grupo de ameríndios na Praça Ramos. As canções folclóricas automaticamente nos identificava como os mais alternativos e nos habilitava a frequentar as melhores cachoeiras e rodas de violão.
A essência, o espírito de São Thomé ainda existia: neo-hippies tocando Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Geraldo e Zé Ramalho no violão estavam lá; o Cruzeiro ainda animava as noites no alto da cidade; inclusive, as atrações indicadas: pizza na pedra, cachoeiras, trilhas e o camping. Havia tudo isso.
Contudo, a mesma propaganda boca a boca que despertou a minha curiosidade transformou a cidade mineira outrora escondida em rota turística, digna de estrelinhas no ‘Guia Quatro Rodas’. Eu, que saí de São Paulo me achando um bandeirante moderno, um Fernão Dias do século XXI desbravando as ”Minas Geraes”, decepcionei-me ao testemunhar hordas de “playboys” a fim de “fumar um”, “encher a cara” e “pegar umas mina”.
Eu ainda esperava encontrar uma grande concentração de gênios incompreendidos por metro quadrado, vários doidos e, dizem, alguns extraterrestres. Porém, o máximo que pude achar, a olho nu, foram uns malucos dos anos 60 ou 70 que fumaram muito “orégano” e um pouquinho de ocultismo.
No fim das contas, o Cruzeiro, parecendo um trem indiano; as cachoeiras, lembrando a piscina do ‘Sesc Itaquera’; o camping, emulando o Parque do Ibirapuera; e as filas para tudo apagaram a magia de São Thomé das Letras.
Voltamos sem experiência esotérica, sem nenhum contato alienígena, muitos turistas (iguais a nós), mas também alguns remanescentes duma São Thomé movida a ‘ayahuasca’. Sobretudo, com a certeza de que a Vila Madalena parece mais mística que as montanhas de Minas Gerais.
