🔵 Compro ouro
O derretimento do metal valioso anunciava o fim do relacionamento. Não era conveniente, nem preciso perguntar o que aconteceu, era hora de obter um bom dinheiro pelo precioso anel, apagando o nome dela. Até acho, o dia que essa história virar filme, tem que ter a cena do nome derretendo e a lágrima escorrendo.
No centro da cidade, os “homens-placa” que exibiam o aviso “Compro ouro” nos indicavam o endereço do mercado negro. Quando criança, ler que havia o comércio de ouro era tão exótico quanto encontrar um poço de petróleo no quintal; pois eu estava negociando o mineral para socorrer a um amigo.
Em prédios antigos, de sala em sala, éramos atendidos através de escotilhas e de modo desconfiado, quase secreto. Parecia que estávamos infiltrados numa máfia. A incursão no temerário ramo das pedras preciosas começou a ficar perigoso, pois era claro que não éramos bem vindos. Mas ainda tínhamos uma joia de ouro e esse era a nossa senha para frequentar aquele ambiente proibido. Aquela seria uma péssima hora para a Policia Federal estourar a bocada, porque seríamos pegos realizando a transação da muamba na cidade subterrânea.
Finalmente, transformamos o sonho de duas vidas em dinheiro pra cerveja, mas aquele comércio clandestino foi burocrático e frio o bastante para dispensar a cerimônia de desenlace. O objeto já teve valor sentimental incalculável, diferente dos gramas que a balança de precisão indicou. O adorno cumpriu o ciclo que começou na ‘Casa das Alianças’ e terminou virando matéria-prima de ourives numa sala comercial de São Paulo. A aliança, que já significou valor alto, foi vendida por um preço baixo. Muito triste…
Como padrinho de casamento, fui testemunha da troca de alianças; que papel estaria fazendo, quando proporcionei o derretimento de uma?
