🔵 Contravenção
A cada pedra cantada, percebi que poderia ser o grande vencedor. A coincidência só podia ser um sinal de que a sorte estaria do meu lado. Adquiri uma autoconfiança imbatível.
Sim, eu disputava um animado bingo de quermesse numa capela do interior. Com direito a velhas piadas como “dois patinhos na lagoa”, “idade de Cristo”, “uma boa ideia” e “vai começar o jogo”, travei a batalha entre idosos, alguns jovens e viciados numa jogatina.
Pois bem, a profusão de “números bons” me levou a ficar “pela boa”. Ignorando as reclamações e desistências dos meus concorrentes, grudei os olhos na cartela, guardei o fôlego e fiquei na expectativa de soltar o grande grito.
Não deu outra. Eu gritei com vontade: bingo! Berrei com potência e fiquei ouvindo os protestos da velha guarda. Triunfante, escapando do linchamento e pedindo passagem para ser notado, fui receber o merecido e grandioso prêmio. Cheguei como quem receberia um diploma; saí, meio sem graça, como saem os que recebem uma medalha de “honra ao mérito”.
O prêmio era um churrasco e um cuscuz. Tinha certeza que eu havia ganhado algo como um rádio de pilha ou um liquidificador. Não desmerecendo o animal sacrificado para satisfazer nossa necessidade de proteína, nem quem preparou a iguaria, mas eu me dediquei e mergulhei no certame esperando locupletar-me com o disputado torneio.
De qualquer maneira, vitória era vitória e precisava disfarçar a decepção: cabeça erguida, peito estufado e estampando um sorriso levemente envergonhado, evadi-me da quermesse, conformado pela benemerência daquele dia.
Apesar do humilde brinde, o certame foi muito disputado e ajudou na liberação da cota diária de adrenalina e, na vitória, dopamina, ocitocina, serotonina e/ou endorfina. Tudo isso, sem ser flagrado pela Polícia Civil ou Federal, nem me esconder embaixo da mesa ou no banheiro. Sim, quando a fiscalização estoura um cassino clandestino, imagino-me: fila indiana e cabeça baixa, saindo da casa de jogos e embarcando num camburão.
O prêmio não correspondeu às minhas expectativas, mas, tenho certeza, o cérebro liberou os mesmos neurotransmissores que derramaria se eu ganhasse uma Ferrari.
