🔵 Ele não surfa, nada


 

Mesmo morando longe da praia e nunca ter subido nem em uma prancha de isopor, consumir revistas de surf era uma modinha das escolas da árida Guarulhos. Como a “carreira” de surfista urbano era proibitiva, restava cultuar marcas de “surf wear” e sonhar que o Havaí era ali.


Surfar no inverno de Mongaguá foi a solução mais econômica para eu passar a eternidade justificando o fracasso litorâneo culpando “a espera pela onda perfeita”.


Largar o emprego no supermercado foi o sacrifício que fiz para embarcar no Terminal Jabaquara. A filosofia diz que o melhor da viagem é o caminho, e realmente era boa a sensação de parecer algo descrito como um surfista, pelo menos com as pranchas debaixo do braço.


Na praia paulista, filosofar olhando para o céu noturno, prevendo ondas que nos afugentariam, era a desculpa perfeita para enchermos a cara de cerveja e fingir que éramos surfistas experientes.


Na água, a cerveja abundante e o equilíbrio escasso expuseram-nos à realidade incômoda, em mar aberto, do desafio de permanecer em pé na prancha. Aquilo ficou parecendo um rodeio constrangedor. Parece, e é, vergonhoso, mas tentar ficar alguns segundos sobre a prancha tornou-se um objetivo possível.


Nos dias seguintes, alternamos a ilusão alcoólica dos “hawaiian dreams ” e a realidade de Mongaguá. Não adiantava culpar o “efeito estufa”, o “aquecimento global”, as “mudanças climáticas” ou o “el niño”, nós estávamos num ambiente para consumir espetinho de camarão, queijo coalho, água de coco e raspadinha.


Aquela modinha escolar da propaganda gratuita das grifes de “surf wear” passou. Talvez, o estilo de vida tenha seduzido bandos de moleques porque parecia a sonhada preguiça remunerada, a sinecura perfeita.


Como prêmio de consolação desse fragmento de experiência aquática de dois “surfistas de butique”, sobrou o retorno com mochila nas costas e pranchas debaixo do braço. Tudo pose.

 


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