🔵 O candidato
Ora vereador, ora candidato, ele era onipresente. Embora não existisse o voto distrital, aquele político era o “dono” daquele bairro. Responsável pelo jornal da Vila Galvão e outras facilidades provincianas, esperava ser retribuído com o que tínhamos de valor: o voto.
Não havia saída, meu voto estava tacitamente comprometido com o transporte “gratuito” para “tirar o R.G.”. Estou ciente de que se eu precisasse de cadeira de rodas, prótese, remédio ou consulta médica, o candidato daria um jeito, já que, mesmo em sentido figurado, todos aqueles benefícios serviam de muletas. Assim, meu voto foi sequestrado.
Bem de manhãzinha, estava eu aguardando a viatura. Depois de alguma espera, chegou o carro. Bovinamente, embarquei na Kombi. Parti feliz... Aquele “privilégio” seduz qualquer um, quanto mais um moleque sentindo-se adulto por adquirir um documento.
Não estávamos pendurados num ônibus lotado, estávamos num... automóvel: talvez esses fossem os sinais da ascensão social. Naquele momento, ir de perua a uma repartição pública era o máximo! Acho que a maioria daqueles contribuintes sentiam orgulho de pagar impostos.
Na verdade, o panorama era bem triste. A fisionomia da população, naquele veículo barulhento, lembrava uma reunião da Pastoral da Terra ou uma iminente invasão a uma propriedade improdutiva. Contudo, eu estava ali. Então, eu lutaria com todas as forças para defender nossa classe menos privilegiada.
A “Kombi da Miséria”, mais do que uma compra de votos velada, era a nossa migalha. Cansados de assistir a benefícios de classes mais favorecidas, agora, enfim, chegou a nossa vez e não perderíamos aquilo por nada.
Sei que não existe almoço grátis, mas aceitei o serviço. Para mim, a obtenção do registro geral significava mais um passo em direção à cidadania; no entanto, aquela estrutura foi armada para arrecadar alguns votos de cabresto. Mesmo inconscientemente, aquele povo votaria no “coroné”, em agradecimento. E ele sabia disso.
Como em muitos lugares, aquele veículo carregava o futuro do Brasil. Não exatamente bom, mas o futuro do Brasil…
Pronto, nós tínhamos um “coroné” para chamar de nosso, a quem devíamos votar até o fim da vida; bem como, sem sequer desconfiar, percebemos que formávamos um recém-nascido curral eleitoral.
