🔵 O motivo do atraso


 Subi alguns degraus, passei a catraca e esperei o Metrô. Já estava acostumado com aquela rotina, mas naquele dia seria diferente. Chegou o trem rumo ao Jabaquara. Entrei no vagão, achei um lugar e passei a compor a paisagem tipicamente paulistana. O sinal anunciou o fechamento das portas. A sucessão de estações seria rápida, não fosse a minha ansiedade causada pelo atraso.


Inebriado pela voz feminina “aveludada” que saía dos alto-falantes, fui interrompido quando a voz masculina e ríspida ordenou: “Não impeça o fechamento das portas, isso atrasa o funcionamento do trem”. Essa pequena bronca começou a quebrar a rotina enfadonha; os pequenos atrasos compunham o desconto na folha salarial.


A rotina foi alterada de uma maneira desagradável, que só imaginei em devaneios infantis. O que um dia foi um pensamento vago tornou-se uma triste realidade: o Metrô partiu com um sujeito, do lado de fora, preso pela blusa. A composição acelerava, e o infeliz “passageiro”, com o raciocínio interrompido, corria, acompanhando o trem. Não se livrando da jaqueta, aquele cara, que corria cada vez mais rápido, só pararia quando chegasse o muro, no fim da plataforma.


Como se a cena fosse em câmera lenta, o burburinho e a gritaria cinematográfica tomou conta do vagão. Entretanto, o desespero não resolvia o problema, e o desastre era iminente. 


Quando eu era criança, sempre quis puxar aquela alavanca que interrompia o funcionamento do trem. Esse momento havia chegado, no entanto a alavanca estava longe. Alerta, mais que desesperado, eu levantei, apontei e gritei: “puxa a alavanca”. Isso fez o trem frear; o sujeito ser salvo; a composição, evacuada; e o meu atraso, consumado. Os seguranças surgiram e, finalmente, saciei a minha curiosidade quanto ao resultado da atitude magnânima. 


Confesso que contribuir para o atraso da coletividade não foi tão comemorado como eu previra nas “viagens” infantis. Diferentemente da situação dramática, quando eu era apenas uma criança, queria acionar a alavanca quando aumentasse a ânsia de vômito.


Minha relativa timidez congênita fez eu me impressionar mais com a imagem dos sete vagões sendo abandonados por minha “culpa” do que com o ato heroico. Apesar do evidente mau humor, nenhum passageiro reclamou do atraso. Todos entenderam o porquê daquilo, bem como que o desfecho poderia ter sido 

bem pior.




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