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Venda ou quitanda era como chamávamos o mercadinho de secos e molhados. Dependendo do tempo, as ratazanas que circulavam pelos corredores do velho armazém eram classificadas como secas ou molhadas; pelo aspecto, provavelmente as secas saíam da prateleira ou do depósito, e as molhadas, do esgoto. Não sei se a vendinha estava infestada daquela praga, mas basta um para deduzir que há uma ninhada e seus parentes.
Eu só desisti de ser cliente da venda quando tentei comprar “chicletes” que, mais que vencidos, há muito tempo tiveram sua fabricação interrompida. Do jeito que estava, ninguém notaria se batizassem aquele mercadinho como: Museu da Alimentação. E o casal de proprietários pareciam peças de um museu de cera da Imigração Japonesa.
Aquele “parque arqueológico” aparentava uma pusilanimidade no atendimento ao público que podia ser desconfiança ou preguiça. Assim, o pequeno comércio do ramo dos produtos da agricultura não atendia a minha procura pelos pacotes de alimentos ultraprocessados.
Pois bem, aquele pequeno comércio de bairro já era anacrônico no começo dos anos oitenta. O imóvel antigo poderia ser como visitar um lugarzinho em Okinawa, mas era em Guarulhos, portanto, a lentidão que parecia uma sabedoria ancestral e meditativa poderia ser apenas tédio e idade avançada. No entanto, mesmo que geograficamente não fizesse sentido, de repente, a circulação de carros, buzinas e sirenes eram substituídas por um silêncio que destacava cada ruído lá dentro.
O empório apresentava um aspecto oriental, quase místico, com o casal de japoneses, sendo que o velho, sempre aparentando um cansaço inexplicável, parecia fazer parte da mobília. Na verdade, o velho japonês me surpreendia com sua presença entre sacos de cebolas, batatas, algum cereal e... roedores.
Definitivamente, o comércio de secos e molhados não era um típico lugar que agradaria o meu paladar infantil. As bolachas, salgadinhos e chicletes, vasculhando bem, poderiam ser encontrados, mas a data de vencimento, sobretudo o frenético trânsito dos mamíferos cinzentos desencorajava o consumo.
Enfim, a vida parecia muito injusta comigo: Como pode, o navio Kasato Maru trazer um carregamento de lojistas asiáticos para vender chiclete estragado na Vila Galvão!?
