🔵 Vendo os anos passando
Estávamos no “Lago”, a cerveja esquentando na latinha, o assunto reticente, monossilábico e escasso, bem como o olhar perdido num horizonte imaginário empregavam drama àquela falta de perspectiva. Esse desânimo não era nada mais que cansaço da festa da escola. Apesar do real motivo da cena melancólica, a imagem mental dos amigos incertos quanto ao futuro sempre gera uma narrativa poética.
Junto à Matemática, Física, Química e Biologia, eu passei longe do cigarro (Derby e Lark) e do Truco. O final do colegial me habilitava para uma incerta faculdade, e o salário baixo possibilitava que trocasse minha latinha de cerveja. Isso não significava algo digno de ser comemorado, mas eu anunciei a “saideira” com certo orgulho.
Talvez, esse comportamento refletisse o sentimento próprio de quem já tinha há muito tempo iniciado o jogo da vida, não como a maioria que elege um acontecimento como marco inicial de alguma coisa.
Aquela palhaçada, digo, a cena do Lago era um “remake” mal-executado do típico final de ginasial, que também foi comemorado com uma festa. Tudo se repetia: a dúvida quanto ao futuro, com o resto de cerveja e a melancolia de fim de ano.
Pois bem, interpretei aquele climinha de quem se encontrava em depressão e dilema existencial, como quem estava em dúvida se ía para o Canadá para fazer intercâmbio ou ficava no Brasil cuidando das empresas do papai. Nada contra, muito pelo contrário, mas isso nunca foi a minha realidade, eu nunca ganhei um pônei. Para mim, não convencia bancar o rebelde sem causa.
No entanto, cumpri meu papel social naquele cenário, achando que meu amigo esperava que aquele dia fosse exatamente daquele jeito. Por alguns momentos, fingi que não conhecia o olho do furacão e “vesti a fantasia” do ex-estudante que tinha que se encaixar no inóspito mercado de trabalho.
Encerrei a embriaguez meditativa. Para mim, o fim de semana estava apenas começando, e segunda-feira era dia de trabalho; para o meu amigo, tudo havia de começar.
