🔵 Eu tô pagando
Foi estranho ver aquele sujeito com características de um legítimo punk de periferia falando que segunda-feira todos estariam num bar de jazz. De cara, incrédulo, eu fiz a pergunta retórica e um tanto tola: de jazz?! Acredito que o programa deveria soar como um jantar dançante ou baile da terceira idade, mas para quem sempre gostou de música, tanto fazia rock ou bossa-nova.
Saí da universidade e, em vez de ir para casa, desviei o caminho, rumo ao tal bar. Chegando lá, um sonzinho de piano não deixava dúvida de que havia encontrado o lugar combinado. Era incomum vê-los sentados ouvindo um pianista naquele ambiente meia-luz, com aquele sonzinho de elevador, sala de espera de consultório dentário ou recepção de casamento.
Nossa conversa estava mais alta que a música. Enquanto isso, tudo conferia um bom gosto e uma sofisticação que destoava da nossa idade, visual, comportamento e histórico. Entretanto, essa incompatibilidade, concomitantemente à estranheza que causava, era bem vinda, muito diferente dos bares imundos e shows de rock que frequentávamos.
Enquanto os valores do cardápio não nos afastou dali, num higienismo silencioso, aquele ritual se repetiu, reunindo aquela confraria vira-lata: sair da universidade, beber e jogar conversa fora ao som de jazz e bossa-nova. A segunda-feira diferenciava e contrapunha o fim de semana um pouco “hardcore”. Realmente, eu me apeguei àquele comportamento, àquela tradição ritualística, mesmo parecendo uma sinalização pequeno-burguesa, coisa de novo-rico.
Com garbo e elegância, ostentando evidentes sinais exteriores de riqueza, sapatênis, camisa polo e pulôver seria o figurino adequado àquele convescote produzido pra alta sociedade. Mas queríamos mesmo extrapolar a concessão à escória guarulhense, então continuamos com jeans, camiseta e tênis surrados. Sempre, é claro, optando pela boa e velha cerveja. O consumo dessa bebida era a opção selecionada perante os caros, e difíceis de entender, drinks, além de, é claro, tudo aquilo não parecer uma mobilidade social forçada.
Menos decibéis e mais notas musicais depois, já estávamos em harmonia com a melodia daquele local salubre, requintado e impoluto que ainda insistíamos em conspurcar com a nossa indumentária e presença repugnantes. Entretanto, a portabilidade etílica descontraía e tornava todos iguais e tudo acessível. Assim, Dave Brubeck, Herbie Hancock, Frank Sinatra e Tom Jobim se tornaram mais familiares. Para permanecer ali, nosso melhor argumento seria: EU TÔ PAGANDO.
