🔵 Guerra dos sexos


Apesar de soar estranho, ir a um boliche foi aceito. Era difícil argumentar que, em São Paulo, faltou opção melhor. Esporte ou entretenimento, mesmo não sendo convencional, era uma mania que seria praticada com chope e fritas. Aquela combinação “vintage” permitiria que eu trafegasse na minha zona de conforto.


A derrota na sinuca, eu estava certo disso, foi um acidente, portanto, tinha muita certeza, não a levaria à pista de boliche sem a absoluta segurança da vitória. Mesmo no Shopping Center Norte, a experiência adquirida no boliche da Vila Maria era suficiente para escapar das “armadilhas”, mesmo lutando contra os efeitos etílicos.


O esporte obscuro era uma oportunidade de eu demonstrar alguma habilidade, fingindo dominar o jogo. Mas o orgulho era fino e se quebrou, e eu não sabia que o chope iria me prejudicar. Confesso que cada “strike” realizado por ela doía no coração. Meu amigo logo viu que aquele teatro farsesco naufragaria, então não participou da “confraria masculina”.


O final da noite foi bem diferente do que eu pude imaginar. Melancólico, não sei se foi meu orgulho masculino ferido ou machismo na mais selvagem manifestação, mas levar uma surra no boliche se revelou uma péssima experiência, porque essa desmoralização já me ocorreu no jogo de bilhar. 


A cada pino que ela derrubava, diminuía minha autoestima e aumentava o velório emocional. O cenário, como em câmera lenta, daqueles pinos tombados descrevia o estado da minha alma. Quando o mecanismo recolhia os restos dos “strikes”, o restante da minha confiança escorria pelo ralo. Toda minha masculinidade tóxica não fazia mais efeito.


A humilhação só não foi completa porque as mulheres fazem questão de demonstrar sua superioridade com uma modalidade de dó. Lógico que isso é muito pior e parece proposital, porque te deixa lá embaixo. 


O requinte de crueldade atingiu o âmago, mas, admito, se eu fosse o ganhador, jamais faria o mesmo. Se tivesse sido o grande vencedor da noite, provavelmente eu passaria o restante da vida lembrando dos “strikes”. Porém, como nada saiu conforme o esperado, o evento contou com todo o meu empenho para cair no esquecimento. 


Mesmo com minha tentativa vil de alterar este acontecimento histórico, nada se compara ao silêncio ensurdecedor e aquele sorrisinho lembrando do triunfo esportivo dela. Aquela forma de desprezo tirou toda a minha moral.


Cansado de levar uma surra feminina e a ponto de ter que ouvir um discurso feminista de empoderamento, eu poderia fingir que facilitei a disputa ou abrir um emperrado pote de palmito. Entretanto, era tarde demais, portanto, tive que suportar aquele opróbrio, vexame e destruição da personalidade.


A mais discreta celebração da vitória era um soco no estômago. Enfim, ter aceitado aquela proposta foi como cavar a minha própria sepultura. 




 

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