🔵. A mansão dos mortos


 O silêncio era, literalmente, sepulcral. Não vi mau agouro ao entrar naquele lugar, ainda mais porque o endereço me igualava aos quatrocentões paulistanos. Onde mais o Conde Francesco Matarazzo ficaria a meus pés? Subindo a rua da Consolação, resolvi levá-la para ver as obras de arte que estavam expostas gratuitamente nos túmulos do Cemitério da Consolação.


Sabia que ela aceitaria, pois os mausoléus da aristocracia, dos quatrocentões e da antiga elite paulistana eram objetos de estudos de universitários e curiosos. Se não fosse durante o dia, a incursão seria facilmente confundida com um passeio gótico, pois a atmosfera fantasmagórica, o visual mórbido e o silêncio assustador inspiravam mais a reflexão depressiva que a contemplação das artes tumulares.


Pois bem, cercados por obras de artistas e cadáveres célebres, começamos a “ziguezaguear” túmulos, mausoléus e lápides. Como esperado, os mais famosos foram sepultados onde havia mausoléus, capelas ou anjos. Até na morte, havia aristocracia e ostentação, como quem insiste em perguntar: “Você sabe com quem está falando!?”. Tive que admitir, o conde Francesco Matarazzo, mesmo morto, parecia poderoso.


Aquele evento, logicamente, apenas satisfazia uma curiosidade mórbida disfarçada de estética artística e sensorial. O objetivo era gerar algum horror. Mas os cemitérios, faz tempo, perderam o misticismo macabro de “cidade dos mortos”, então, nada apavorante poderia acontecer. O mais surpreendente é o silêncio (a paz dos cemitérios) quase no centro de São Paulo.


Aquele lugar era bastante tétrico? Sim. No entanto, foi a opção mais econômica para iniciar o sábado com uma exposição de artes sem custo e fila. As obras sobre cadáveres e placas de bronze contendo datas de nascimento e falecimento eram detalhes que jamais, em hipótese alguma, podiam ser desprezadas. 


Havia um paradoxo ao celebrar a vida num lindo sábado ensolarado cercado por defuntos e os muros do Cemitério da Consolação.





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