🔵 Vida de plástico
O cinema contava que veio do planeta Krypton, mas era mais provável que aquele boneco de roupa esquisita tenha vindo da loja de brinquedos. Depois, pude presumir que o super-herói tenha sido moldado numa máquina, contudo cumpriu a função de me manter entretido quando ainda não existia videogame.
O herói inanimado não tinha superpoderes como no filme, pelo contrário, fui precoce ao cair num estelionato no qual ganhei um boneco de plástico que só mexia braços e pernas. Portanto, o Superman de brinquedo me obrigou a usar a criatividade.
Porém, a minha vingança era silenciosa, pois eu explorava um boneco que não devia ser licenciado, portanto, uma grosseira e barata pirataria. Suspeitar que tratava-se de um brinquedo clandestino foi a consolação por possuir um super-herói inerte que não realizava nenhum truque.
Ofereci o brinquedo ao meu cachorrinho. No início parecia que o animal iria atacá-lo, pois os dentinhos afiados à mostra pareciam uma ameaça. Intimorato, mesmo sem demonstrar nenhum sobressalto, o alienígena benévolo e fantasiado continuou inabalável.
Mas logo, o filhote canino ignorou a minha oferta, talvez julgando o meu entretenimento besta demais ou preferindo um pedaço de osso. Confesso que fiquei ofendido por ter sido ignorado por um cão, mas meu Superman de plástico levantou voo, e sumimos num mundinho imaginário. Ser insultado por um vira-lata não era o suficiente para abalar suas habilidades sobrenaturais.
Não fazia muito sentido, para quem via de fora, o personagem que não esboçava nenhuma reação, mas somente eu era capaz de captar aquela frequência da linguagem do planeta Krypton. Ninguém podia me compreender, mas aquele objeto aparentemente inanimado estava me ajudando a inspecionar a casa.
Aquele produto perdeu a capa, entretanto o herói não perdeu os superpoderes, de modo que continuamos realizando intervenções domésticas como se estivéssemos salvando o mundo.
