🔵 Comida de rua
Ir até a travessa da Avenida Paulista era um dos preços que teríamos que pagar para comer o “hotdog” do qual tanto falavam. Devido ao endereço turístico, o velho cachorro-quente era conhecido com o nome importado, mas logo seria conhecido pelo apelido: dogão. Depois de algum tempo, a parada obrigatória começou a esticar a noitada e anunciar uma nova saideira.
Entretanto, a parada improvisada foi transformada em um novo destino. O logotipo estampava um cão preto, com óculos escuros, aspergindo “catchup” no sanduíche. O salão seguia o padrão americano da lanchonete do palhaço. Tudo destoava da antiga barraquinha de cachorro-quente do “Paraná”.
A lanchonete da rua transversal à avenida famosa em nada lembrava aquela barraquinha onde matávamos a fome da madrugada; mais parecia uma filial de McDonald’s de shopping center. Provavelmente, teria uma plaquinha escrito “Visite a nossa cozinha”, um informativo de inspeção da Vigilância Sanitária, extintores e o preço do “dogão”, digo, “hotdog gourmetizado”.
E não deu outra; os funcionários uniformizados atendendo friamente como robôs equipados com inteligência artificial, as contas digitalizadas, o marketing visual e o aluguel no bairro nobre inflacionaram o lanche, que ficou caro e industrializado. Além disso, a paisagem urbana dos edifícios e as antenas da “Paulista” foram substituídas pelas lâmpadas fluorescentes da nova lanchonete.
Isso parece matéria paga. Mas é apenas a descrição do nascimento de uma grande rede de lanchonetes. Ou: a ex-barraquinha de comida de rua do Paraná. Parece saudosismo barato (e talvez seja), mas quando o ‘Black Dog’ era só uma barraquinha o “hotdog” parecia melhor.
Entrar na rua Joaquim Eugênio de Lima para forrar o estômago e neutralizar os efeitos do álcool, vindo da Vila Madalena, Pinheiros, Itaim ou Vila Olímpia, não seria mais a mesma coisa.
Ficaram faltando os únicos ingredientes que nenhum pão com salsicha vai conter: os arranha-céus, as antenas da “Paulista” e o satélite natural.
