🔵 Disque 15
Era desanimador ligar novamente para a companhia telefônica espanhola e ser atendido por um robô inepto e mal-educado.
Enfim, alguém, digamos, humano surgiu para me socorrer. Mas a gigante das telecomunicações deve ter orientado os atendentes para atingir meu sistema nervoso central ou desequilibrar qualquer estado de calma zen-budista e estado meditativo. Diferentemente das máquinas falantes, os funcionários eram orgânicos, porém, suas falas, robotizadas.
Fui levado aos fragmentos restantes de sanidade mental e convencido a desistir. No entanto, disposto a manter a honra, encontrando forças para reaver meu suado dinheirinho, determinado pelo ódio e com uma confiança compatível com quem quer fazer valer o ‘Código do Consumidor’, decidi comparecer ao PROCON (Programa de Proteção ao Consumidor) mais próximo.
Como nunca fui advogado, tive que interpretar um rábula de mim mesmo. Os filmes de tribunal deviam ser muito fantasiosos para minha realidade de consumidor indignado. Parti munido de argumentos jurídicos, como: inversão do ônus da prova e venda casada. Meu “juridiquês” tinha tudo para impressionar, pois redigi uma carta que parecia ter sido escrita por Rui Barbosa.
Cheguei intimidado com minhas intenções gananciosas, porém, fui ganhando confiança e ,naquele momento, eu estava tomado por uma cegueira de raiva e ambição, portanto, disposto a destruir a ‘Telefónica’, a empresa gigante da Península Ibérica.
Sabia que estava negociando com uma gente perigosa, barra-pesada, casca-grossa, um tipo de ser humano capaz de treinar atendentes de telemarketing cruéis que sabem desestabilizar emocionalmente e extrair de um padre franciscano os palavrões mais cabeludos.
Entretanto, eu estava invertendo o jogo. Disposto a enfrentar uma repartição pública, um escritório de advocacia ou algum representante da empresa vestido de paletó e gravata, eu recuperaria aquele valor impresso a mais na minha conta. Como num joguinho de videogame, eu estava na última fase, lutando com um monstro horrível e praticamente invencível.
Não enriqueci, mas ganhei a causa. Não arruinei os negócios da antiga ‘Telesp’, que sempre capitalizou minhas conversas no ”orelhão”. Se eu tivesse mania de grandeza, e a história fosse verossímil, juraria que a ‘Telefónica’ mudou seu nome para ‘Vivo’ por minha causa.
