🔵 Fogo amigo
Disparos e perseguição substituíam a paz bucólica. Próximo à Grande São Paulo, aquele “teatro de operações” com características de zona rural havia deixado de ser refúgio paulistano para abrigar mercenários com “punhal na bota, sangue nos olhos e faca nos dentes”.
Os tiros atingiam os alvos errados. Aquele bang-bang a esmo alvejara abrigos antibalísticos, árvores, pilhas de tijolos e o nada. A correria, improdutiva, seria efusivamente desviada rumo ao estoque de comida e bebida. Entretanto, os combatentes reuniram as últimas forças para o ataque final.
A correria frenética acabou na varanda da chácara de Santa Isabel. Os moradores daquele condomínio perceberam que o armamento era de brinquedo, e o barulho se tratava de uma “guerrinha” entre amigos.
No entanto, a “síndrome do pequeno poder" contaminou o grupo que atacou e imbuiu de autoridade ilimitada e truculência de última hora, portanto, não havia amigos, somente inimigos que deviam ser tratados com o rigor reservado aos fugitivos. Mas o abuso de autoridade foi longe demais, e, naquela hora, uma mente sensata precisava interromper aquele espetáculo antes que a ignorância, o sangue e sessões de tortura e espancamento entrassem em cena.
Como no filme “Experimento de Aprisionamento de Stanford”, o nosso grupo identificou quem apresentava pendores opressores, mas interrompemos aquele “Teste Vocacional” para ditador.
O fogo amigo do carvão e o estalo da lata de cerveja foram os sinais que encerraram as atividades bélicas, a violência gratuita, a legitimidade da neutralização dos inimigos, o uso excessivo da força, a espetacularização do esculacho humilhante, a repressão severa, a manifestação de superioridade reprimida, o desgraçamento mental, a anulação da personalidade, a lavagem cerebral com sabão em pó, a manipulação ideológica, a tortura psicológica e a linguagem ríspida.
